O líder humanizado não é o líder “agradador”
Líderes exemplares conseguem ser claros e exigentes sem abrir mão da escuta, do respeito e da consideração pelo outro. Eles não abrem mão de ser gente.
*Por Adriana Prates
Pensar o futuro, hoje, é um desafio incômodo. Em meio ao emaranhado de inovações e solucionismos tecnológicos, uma cena atravessa a cabeça: pessoas em uma vasta e moderna paisagem, sem se falar. Cada um no seu quadrado, ou melhor, no seu retângulo, compondo uma realidade insípida. Ao lado dessa cena, uma questão incomoda ainda mais: o que estamos fazendo com o nosso tempo?
A bem da verdade é que estamos cada dia mais imersos em vídeos rápidos, lendo legendas diminutas, ouvindo podcasts que resumem o noticiário do dia. Vivenciando a vida alheia por meio de fotos ultra produzidas. E quanto mais nos dedicamos ao digital, menos usamos o nosso tempo “sendo gente”.

Para Adriana Prates, o líder humanizado consegue ser claro e exigente sem abrir mão da escuta, do respeito e da consideração pelo outro.
Basta pensar na sua rotina: quantas vezes ouvimos, olhamos no olho, rimos ou discordamos sem a pressa que rege o nosso tempo? Quantas vezes vivenciamos, nos momentos de folga, a vida que pulsa, como as simples maravilhas da natureza ou da arte? Não vejo outra alternativa para trilhar o desenvolvimento, senão “sendo gente”. Esse é o caminho para formar líderes mais humanos, saudáveis e produtivos.
Consciência emocional
Cuidar da própria humanidade (sendo gente) é a maneira de solucionar um dos maiores gaps das empresas: líderes que são exímios técnicos, mas não sabem lidar com pessoas. Há uma dificuldade enorme em desenvolver a habilidade de engajar, se relacionar e, quando necessário, confrontar de forma madura. E tudo isso começa com a própria consciência emocional.
Não se trata de “sentir melhor”, mas de compreender como as próprias emoções influenciam decisões, relações e desempenho. Lideranças que não desenvolvem esse nível de consciência tendem a reagir mais do que agir, especialmente sob pressão. E isso, mais uma vez, não se faz por meio de interações digitais. É preciso presença em grupos, estar junto, pensar e discordar junto.
Resultado sem esgotamento
Essa vivência humana permite outro ponto crucial: a construção de um eixo interno de estabilidade. Isso envolve autorregulação e a gestão da própria energia. Saber pausar, recalibrar e escolher como responder diante de contextos complexos é o que diferencia profissionais tecnicamente bons de líderes consistentes. Essa habilidade é treinável, mas exige intenção e prática contínua que envolve cuidar da saúde física e mental não como algo acessório, mas como base de sustentação da performance. Alta liderança exige energia, clareza e capacidade de recuperação. Sem isso, o custo pessoal e profissional se torna alto demais.
Mesmo que o mercado ainda valorize muito a performance, o que diferencia os líderes de hoje é a capacidade de gerar resultado sem esgotar a si mesmos e aos outros. Isso exige maturidade emocional, consciência de limites e consistência de valores. No fundo, mais do que acumular cursos, ferramentas, títulos, o que precisa ser priorizado é a construção de um nível mais profundo de presença, clareza e responsabilidade sobre si mesmo.
Humanidade não é complacência
Outro ponto fundamental é entender que humanidade não é sinônimo de complacência, de fraqueza ou de não saber lidar com alta pressão. É possível, e necessário, tomar decisões difíceis, dar feedbacks duros e fazer movimentos impopulares – mas para sustentar isso da melhor forma é preciso coerência, transparência e respeito pelas pessoas. E esses, certamente, não são atributos da “liderança agradadora”.
Líderes exemplares conseguem ser claros e exigentes sem abrir mão da escuta, do respeito e da consideração pelo outro. Ser gente não suaviza a liderança, qualifica a liderança. Equilibrar esses dois polos (a firmeza para tomar decisões e o respeito ao outro) exige, antes de tudo, consciência. Consciência sobre o impacto do próprio comportamento, sobre os limites da equipe e sobre o contexto em que as decisões estão sendo tomadas. Sem isso, o risco é operar no automático, reproduzindo modelos que já não respondem à complexidade atual.
Dosar humanidade e resultado, compreende-los como dicotomia ou opostos é, ao meu ver, um grande erro. Resultados consistentes são consequência de ambientes onde há clareza, responsabilidade e relações humanas de confiança.
Clareza de pensamento
Ao longo de mais de 30 anos de experiência atendendo a alta gestão de empresas de vários segmentos e portes, contribuindo para o desenvolvimento de jovens talentos e preparando sucessores, posso dizer com tranquilidade: se existe uma trilha de desenvolvimento, ela passa, necessariamente, pela humanidade, o que inclui o tão famigerado repertório (conhecimento não se constrói só com teoria, certo?)
Essa experiência humana contribui imensamente para uma leitura sagaz do contexto, das pessoas e de si mesmo. Contribui, ainda, para a clareza de pensamento, para conseguir lidar com a complexidade sem se perder nela, simplificando o que precisa ser decidido e dando direção com segurança, habilidades cruciais para a liderança. Quem não desenvolve essas capacidades tende a operar bem no curto prazo, mas limita seu alcance no longo prazo.
Àqueles que desejam seguir carreira na liderança, indico, ainda, que assumam essas posturas, entre outras responsabilidades, o quanto antes. A liderança humanizada não começa no título, começa na forma como o profissional se posiciona diante dos desafios, olhando o todo, tomando decisões difíceis e sustentando consequências. Mais uma vez, sendo gente.
*Adriana Prates é CEO da Dasein EMA Partners Brasil.


