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Quando a verdade entrou nas organizações

De tempos em tempos aparece nas organizações uma nova palavra, um novo conceito ou uma nova prática prometendo resolver ou maximizar situações próprias a esse contexto. É bem compreensível que alguns desses termos, sua conceituação e práticas correspondentes se adaptem facilmente à lógica empresarial. Para citar apenas dois desses termos tomemos o caso de: motivação e inovação.

Introduzidos mais recentemente no ambiente organizacional temos também: meditação e espiritualidade, que podem causar certa estranheza de início. Afinal, fomos condicionados a separar a vida em categorias. Uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa.

De um lado elencamos: empresas, capital, produção, vida material, performance, foco nos resultados, metas e “ter”. Do outro lado temos: vida interior, espiritualidade, imaginação, meditação, devaneio, sonho e “ser”.

Nesse bojo veio também um outro termo, traduzido como ferramenta de gestão: “storytelling”, que chegou aos EUA na década de 1990, como uma nova escola de administração. Na Europa desembarcou pouco depois e mais recentemente no Brasil. Causou grande resistência inicial, pois foi cunhado a partir de outro termo: “storyteller”, ou contador de histórias. Sim! contador daquelas histórias que começam assim: era uma vez… na noite dos tempos.

Ora meus senhores, isto nada tem a ver com empresas. Essa gente olha para trás e as empresas olham para frente! Mas depois a coisa pegou e começou a fazer sucesso. Segundo Denning, o responsável por essa, digamos, revolução narrativa nas organizações, o sucesso do storytelling se explica porque: “Nada mais funcionava”. E por que não? diz ele: “Porque é preciso reaprender tudo: pensar, agir, trabalhar em rede, gerenciar à distancia, formar equipes nômades, controlar a super abundância de informações, adaptar-se à rapidez dos negócios em tempo real. Há inovações que engendram as ‘e-transformations’ e os pré-julgamentos tenazes que resultam na perda de milhões de dólares. Acabaram as apresentações power point, os check-lists, as argumentações cansativas. Lugar para o Storytelling!”

Pouco a pouco a ideia de se contar histórias nas empresas foi ganhando espaço nas reuniões de pauta, nos treinamentos, nas formações continuadas, nas palestras. Aos poucos, nos diferentes discursos organizacionais e para atender às mais variadas demandas, as histórias foram fazendo seu ninho nesse lugar, que a meu ver é um dos lugares onde mais elas têm sido necessárias nas últimas décadas, e por que?

Ora, pois! Estamos enrolados. As questões atuais são muito mais complexas do que se podia imaginar, e não é possível resolvê-las pelos antigos “métodos de resolução de problemas”. Assim é que: tardaram, mas não faltaram, os contadores de histórias hoje levam sua velha arte às empresas. Sua palavra metafórica, simbólica, ficcional, inspira esse universo organizado em torno da precisão, rigor, clareza, análise, abstrações, transparência e limpidez, ou seja, firmemente ancorado numa realidade hiper concreta.

Tenho sido uma dessas contadoras a chegar nas empresas levando comigo mil e uma histórias capazes de atender às mais diversas situações.

Mas não posso dizer que já seja fácil para um contador ter a aquiescência imediata daqueles que o contratam. Em geral, são várias as reuniões para apresentar a proposta. Esta ainda é uma linguagem vista com certa desconfiança e o contratante que, em geral teve a ideia a partir da indicação de alguém de outra empresa, costuma ficar inseguro quanto à eficácia do serviço. Nos dias atuais um deslize qualquer poderia representar até mesmo uma demissão. Então, o que costumo fazer nessas reuniões, para sugerir os contos que podem atender às demandas, é sensibilizar os contratantes contando uma história. Assim eles próprios podem ter a experiência do que significa um bom conto para a rápida compreensão de um conceito complexo, a aceitação de mudanças, etc.

Um conto, que costuma fazer muito sucesso nessa situação é: “A fábula, ou como a Verdade entrou no palácio” um conto árabe contado por Malba Taha. A verdade quis conhecer um palácio. Para isso precisava tomar uma forma. Escolheu um corpo de mulher. Nua bateu nas portas do palácio e apresentou-se pelo nome de Verdade. O guarda anunciou-a ao vizir que se recusou a receber uma mulher nua. Ela tentou novamente cobrindo-se com peles de animais, ainda mal curtidas e mal cheirosas e apresentou-se pelo nome de Acusação. Mais uma vez teve seu pedido recusado. Se a Verdade seria perigosa naquele palácio, o que dizer da Acusação? Tentou mais uma vez cobrindo-se de joias, perfumes e roupas de seda. Apresentou-se como Fábula e dessa vez foi recebida com honras.

Pois bem, contando histórias pode se dizer tudo sem que defesas sejam levantadas e a compreensão é mais rápida, pois envolve também o aspecto emocional e a imaginação.

*Por Gislayne Avelar de Matos – contadora de histórias, educadora, escritora e pesquisadora da tradição oral.

*DENNING, Stephen. O poder das narrativas nas organizações, citado por MATOS, Gislayne A. Storytelling: líderes narradores de histórias. Rio de Janeiro: Qualitymark, 2010.

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