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Felicidade nas Relações Amorosas. É possível?

“Para onde vai a minha vida e quem a leva?
Por que faço eu sempre o que não queria?
Que destino contínuo se passa em mim na treva?
Que parte de mim, que eu desconheço, é que me guia?…”

Fernando Pessoa

Em uma viagem à Zagreb, Croácia, entre tantas belezas visitadas, chamou-me a atenção, ao passar diante da porta, o Museum of Broken Relationships (ilustrado neste artigo). Em tradução livre, Museu dos Relacionamentos Rompidos. Ali estão objetos doados por pessoas que tiveram decepções e rompimentos amorosos. Existe toda uma gama de objetos como alianças, anéis de compromisso, presentes, declarações de amor em cartões, em guardanapos, cálice de vinho… Também apresenta objetos banais e outros inusitados como um pé de sapato alto, uma lingerie e até uma machadinha.

É muito divertida a visita a este diferente museu que abriu, inclusive, uma franquia em Los Angeles, nos Estados Unidos. Acredito que deve ter sido uma boa catarse para aqueles que deixaram lá seus objetos, mas como psicóloga fui um pouco além e iniciei uma reflexão sobre as relações humanas amorosas, que compartilho aqui.

Ao estabelecermos esses vínculos, não somente os amorosos, mas também de outros tipos, buscamos encontrar uma completude (traduzindo para o popular, nossa alma gêmea), dizem os psicanalistas. No entanto, somos eternamente seres “em falta”- o que é essencial, pois se assim não fosse, não teríamos desejos, e portanto, a completude não é possível. Temos dificuldade de lidar com a falta e ao tentar preenchê-la a qualquer custo nos frustramos, já que essa é uma tarefa impossível.

Uma das tentativas mais comuns de evitar esse vazio é através das relações afetivas com os parceiros amorosos. Tais parceiros serão sempre imperfeitos, já que a perfeição não existe. Além disso, nutrimos expectativas irreais de que os outros nos completarão e são aquilo que fantasiamos que deveriam ser. Nessa situação fazemos exigências em relação aos parceiros que eles não podem atender, o que vai nos causar tristezas, mágoas e até traumas.

Hoje em dia temos um novo complicador que são as relações virtuais tão fugazes e baseadas em enganos sobre com quem estamos verdadeiramente falando. Lembrem-se do filme “Ela”, do diretor americano Spike Jonze, no qual o protagonista apaixona-se perdidamente pela mulher virtual que – sim, ela podia – atender todas as suas necessidades e dificuldades. Uma ilusão terminada por uma grande decepção e frustração.

Um outro complicador, do ponto de vista da antropologia para as relações humanas, digamos, felizes, é o fato de que nosso código genético ainda carrega os instintos egoístas e agressivos que foram vantajosos para a sobrevivência dos nossos antepassados. E, por fim, mais um complicador: o inconsciente, profundamente estudado e trabalhado por Freud.

Estudos recentes da neurociência confirmam a existência do inconsciente e revelam que o seu processamento é cerca de 200 mil vezes maior do que o consciente. A neurociência, com seus estudos de neurologia, fisiologia, antropologia e psicologia desvendam as bases dos processamentos cerebrais ou mentais, incluído aí o inconsciente.

O professor Luís Eugênio Melo da Universidade de São Paulo, em um de seus artigos nos diz que “parece haver um conjunto de áreas cerebrais dedicado a um processamento de estímulos que escapam à nossa consciência”. Ele cita o neurologista português Antonio Damásio, que em um dos seus inúmeros estudos demonstra que nossas decisões são claramente influenciadas por eventos pregressos e pelas reações emocionais que eles produziram, mesmo quando não os percebemos.

O livro “O Novo Inconsciente”, de Marco Callegaro, mestre em neurociência e comportamento, revisa o conceito freudiano do inconsciente e propõe uma nova visão. A proposta da obra é um entendimento mais amplo e satisfatório do processamento inconsciente, alicerçado no conhecimento atual sobre cérebro, cognição e comportamento. Ressalto alguns pontos do seu livro, que embasam a nossa reflexão sobre as relações humanas:

A maior parte do processamento realizado pelo cérebro humano é inconsciente e só temos acesso consciente a um resumo editado e nada fidedigno dessas informações. Todos os principais processos mentais podem operar automaticamente e fazer muitas coisas que se pensava dependerem de intenção, de deliberação e de percepção consciente.

O hemisfério esquerdo do nosso cérebro atua para utilizarmos mecanismos de autoengano, distorcendo a percepção da realidade para mantermos um modelo coerente, conveniente que dê significado ao nosso comportamento. Isto ocorre para reduzir a dissonância cognitiva entre o que é e o que deveria ser.

Desde a descoberta do inconsciente, e atualmente com a sua comprovação pela neurociência, deveríamos ser um pouco mais humildes ao saber que muitos dos nossos atos não são guiados pelo livre arbítrio. Distorcemos sistematicamente nossas percepções e memórias para que elas se encaixem em nosso autoconceito e lembramos  seletivamente as experiências que confirmam nossas crenças sobre nós mesmos e sobre os outros. Também não temos o poder de controlar os fatos e as pessoas que estão ao nosso redor. E ainda por saber que, para mantermos um equilíbrio e evitar a angústia e a dissonância cognitiva, distorcemos a realidade e construímos uma realidade mais conveniente à necessidade de coerência do que de fidedignidade.

Mas, apesar de tudo isso, não é o que parece ter acontecido. Ao contrário. Somos particularmente propensos a enganar a nós mesmos quando existe necessidade de revisar algum aspecto da nossa autoimagem. Superestimamos nossas ações e subestimamos as ações alheias. Se somos comprovadamente assim, significa que estamos fadados ao insucesso nas relações? Será impossível ter felicidade nas relações amorosas?

Acredito que não. Como humanos temos a capacidade da empatia comprovada pela descoberta dos neurônios espelhos, a consciência, a capacidade de pensar e de aprender. Se aprendermos a lidar com a falta, a nos autoconhecermos, a reduzirmos as exigências de completude pelo outro, a aprofundarmos as relações, especialmente utilizando o diálogo, controlando nossas pulsões agressivas e utilizando nosso cérebro no que temos de positivo, poderemos sim ter relações amorosas e outras, bem-sucedidas. E assim, quem sabe, não precisaremos deixar nenhum objeto no Museu dos Relacionamentos Rompidos.

É fácil? Claro que não. Sempre existem riscos de escolhas equivocadas nas relações e na vida. Como dizia o personagem do escritor Guimarães Rosa, o Riobaldo, na obra prima “Grande Sertão: Veredas” – “Quem que diz que na vida tudo se escolhe?  A vida nem é da gente. Viver é negócio muito perigoso”.

Para ficarmos otimistas termino com um fala do grande físico Stephen Hawking que, apesar de sofrer de esclerose lateral amiotrófica desde jovem, diz: “Por pior que a vida pareça, enquanto houver vida, haverá esperança. A esperança é tudo! A vida é tudo! O amor é tudo!”

*Por Thelma M. Teixeira – psicóloga, psicodramatista, consultora organizacional e professora associada da Fundação Dom Cabral.

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