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“Tudo começa com a vontade. Uma vez sabendo o que quer e onde quer chegar, siga em frente”

Fazer uma mostra de cinema diferente de tudo que já havia sido realizado, apostando somente na produção nacional. Esse foi o grande desafio proposto pela gestora cultural Raquel Hallak. No início, a ideia foi vista com uma certa desconfiança pelos profissionais do meio, mas com muita garra, dedicação, comprometimento e visão empreendedora, Raquel provou que seu objetivo não só era possível como se tornou uma das maiores realizadores de festivais cinematográficos do país. É ela o nome por trás do Cinema sem Fronteiras formado pela Mostra de Cinema de Tiradentes, Mostra de Cinema de Ouro Preto – CineOP e Mostra Internacional de Cinema de Belo Horizonte – CineBH.

Na correria para finalizar os últimos detalhes de seu próximo evento, a Mostra de Cinema de Tiradentes, em São Paulo, Raquel Hallak reservou um tempinho para conversar conosco e falou sobre os principais obstáculos enfrentados para chegar onde chegou, a sua relação com o cinema, o legado que pretende deixar para as gerações futuras e compartilhou ainda suas referência na sétima arte e na literatura.

Inspire-se nessa história você também!

Você construiu o que é hoje um dos principais festivais de cinema do Brasil e é responsável por dar visibilidade nacional à cidade de Tiradentes. Quais foram os principais obstáculos que você precisou superar para alcançar esse resultado? Ser mulher ajudou ou dificultou esse caminho?

Tudo começou em 1998, na cidade de Tiradentes, Minas Gerais, de apenas cinco mil habitantes. Na Universo Produção, éramos três pessoas que viviam momentos de descobertas profissionais com o propósito de inovar, inventar e ousar em suas atuações. Cada uma com um perfil diferente e complementar. Não tínhamos noção dos inúmeros desafios que nos aguardavam, nem se estávamos fazendo a escolha certa e que frutos dariam. Tínhamos o ímpeto de querer e fazer. Assim nascia a Mostra, partindo inicialmente de um grupo de pessoas, com o apoio de amigos e das famílias e com uma empresa patrocinadora que acreditava na empreitada.

Anunciar a Mostra de Cinema de Tiradentes como a grande aliada do cinema brasileiro gerou estranheza no meio cultural. O que mais ouvíamos era: “Como você vai sustentar um evento audiovisual anual exibindo somente filmes brasileiros, se não temos produção suficiente para isto?”, “Fazer uma mostra sem caráter competitivo, isto não vai dar mídia”, “Em Tiradentes?”, “Que cidade é essa?”, “Onde fica?”, “Como vai conseguir patrocínio?”. Minha resposta era a mesma para todas essas questões – vamos fazer uma mostra de cinema diferente de todas que já existem no Brasil. Queremos um evento não só para exibir e premiar filmes, mas para ser um instrumento de formação, promoção e difusão do nosso cinema e um reflexo da produção contemporânea. Tendo ou não filme para exibir, vamos apresentar um conceito para pensar, discutir e fazer ecoar os melhores frutos. Um evento para deixar um legado, para reunir o Brasil em Minas.

E o evento, que começou sua trajetória exibindo filmes brasileiros numa lona de circo, no Largo das Mercês, tornou-se um espaço enriquecedor de exibição e discussão do cinema brasileiro contemporâneo – um exemplo que já impulsionou novas iniciativas em Minas e no Brasil e testemunhou o surgimento de uma nova geração de realizadores.

Não enfrentei dificuldades por ser mulher nesta atuação empreendedora. O maior desafio é convencer que a cultura além de ser um bom negócio, é expressão de uma sociedade, um bem universal que precisa ser valorizada, consumida e admirada.

Conte para os nossos leitores de onde vem a sua relação com o cinema.

O cinema sempre fez parte do meu entretenimento, mas como instrumento de trabalho aconteceu por um acaso. Estávamos empenhados em criar um projeto para o Centro Cultural Yves Alves que encontrava-se fechado aguardando definição dos rumos que tomaria. Nossa ideia era fazer uma mostra de cinema regionalizada com a intenção de incentivar a inauguração e o funcionamento do local, mas já na fase da produção percebemos que existia uma lacuna no segmento audiovisual em Minas e, em poucos meses de trabalho, mudamos o foco para promover um evento com alcance nacional. Foi uma conjugação de esforços para que conseguíssemos, em tempo recorde, formatar e viabilizar uma programação representativa da retomada da produção cinematográfica daquela época.

Foi a partir desse momento que o cinema entrou na minha vida. Já não apenas como entretenimento, mas percebido como um importante instrumento de transformação social e construção da cidadania.

Considerada uma das principais produtoras culturais do país, quais habilidades e competências foram fundamentais para a sua trajetória?

Liderança, inovação, planejamento e ousadia são alguns dos ingredientes fundamentais que incorporei na minha trajetória profissional como gestora cultural ampliando os conhecimentos da teoria e prática da minha formação em Comunicação Social e Gestão de Planejamento. Personalizar o atendimento, ser pioneira em atitude e programas, dialogar, engajar, inserir e aliar a cultura com o segmento social, turístico, educacional e econômico foram visões e metas estratégicas desenvolvidas também ao longo do meu percurso que fizeram diferença na minha atuação e na maneira própria de trabalhar.

É importante também ter uma visão empreendedora, de vanguarda, contar com a atuação de uma equipe competente e dedicada e ter ao seu lado parceiros comprometidos para avançar e somar esforços visando concretizar um trabalho diferenciado que agrega credibilidade, respeito e criatividade aliados à responsabilidade e compromissos sociais.

Todas as mostras realizadas pela Universo têm uma grande preocupação com o lado social. Qual legado cinematográfico vocês pretendem deixar para as gerações futuras?

A Universo Produção realiza três importantes mostras anuais, diferenciadas e complementares, formando um amplo programa internacional de audiovisual – o “Cinema sem Fronteiras” – que exibe e discute a produção contemporânea do cinema brasileiro, sua história, patrimônio, linguagens, estéticas e formas de inserção no mercado audiovisual.

Este programa tem se destacado nacionalmente e internacionalmente pela sua proposta conceitual, alcance, resultados e legado registrado. No percurso de sua história apresentou uma nova configuração de cinema, abriu espaço para propostas de estéticas e linguagens ousadas e independentes, revelou novas iniciativas, e colocou em evidência as características e novidades do cinema brasileiro contemporâneo. Inaugurou também o diálogo entre críticos, pesquisadores, realizadores e produtores. Investiu no potencial dos jovens com ações de formação e reflexão. Esboçou alguns diagnósticos estéticos, temáticos e estruturais sobre a produção dos últimos vinte anos e evidenciou na tela algumas características mais sintomáticas do momento, como a forte proximidade do cinema com a música, com as questões da juventude, com os próprios mecanismos do cinema e com a memória do Brasil.

Em todas as edições de nossos eventos contamos sempre com a presença e participação de profissionais do audiovisual, da cultura e educação e curadores de festivais internacionais que nos prestigiam para conhecer o que há de mais promissor na produção audiovisual brasileira. Esse diálogo e intercâmbio em favor do cinema brasileiro têm gerado importantes frutos para os profissionais do país que já tiveram seus filmes selecionados para diversos festivais internacionais, como: Cannes, Berlim, Locarno e Veneza.

Somando as edições anuais e consecutivas da Mostra de Cinema de Tiradentes, a CineOP e CineBH totalizamos 41 realizações em Minas Gerais em 20 anos de atuação no segmento audiovisual beneficiando mais de 900 mil pessoas que tiveram acesso gratuito e democrático aos bens culturais com a oferta de uma programação que reúne ações de formação, reflexão, exibição e difusão. Já foram exibidos mais 3.500 filmes, realizadas 250 oficinas que certificaram mais de 6.000 alunos, 41 seminários, 37 cortejos da arte, 46 exposições temáticas, 70 espetáculos de rua, 172 shows musicais.

Mais de 80 mil alunos foram beneficiados com a realização do programa Cine-Expressão – A Escola vai ao Cinema. E, para compartilhar conteúdo, experiências e resultados destas ações culturais, a Universo editou e publicou três livros com o propósito de contribuir e eternizar a diversidade do fazer cinematográfico sobre os efeitos do tempo – visto em perspectiva, seja em seus marcos históricos, seja na pulsação da contemporaneidade.

Essa imensa manifestação cultural evolui a cada edição. As cidades de Tiradentes, Ouro Preto e Belo Horizonte que sediam as edições anuais das Mostras ganharam novo fôlego e visibilidade, receberam investimentos, tiveram o fluxo turístico ampliado, cresceram e desenvolveram. Destacamos Tiradentes, em que a Mostra de Cinema foi precursora, transformando-a em uma cidade turística, revigorada e projetada mundo afora.

Você é referência para muitos profissionais. Quais personalidades a inspiram atualmente e porque?

Estamos precisando de personalidades e lideranças no mundo atual. A crise não é só política e econômica, é de identidade também. Por isto, destaco duas personalidades que me inspiram pela trajetória, determinação, persistência e ousadia – Nelson Mandela e Gandhi.

Admiro pessoas comuns, as que são e dão bons exemplos. As que realizam trabalho voluntário, que encontram tempo para compartilhar e doar amor, as que são presença e amenizam o sofrimento do outro. Pessoas que fazem a diferença. Mas como são anônimas, não são celebradas.

Poderia citar para nossos leitores filmes e livros que a influenciaram ou foram marcantes para sua vida profissional?

Vou citar somente filmes brasileiros, porque faço questão de incentivar e dar dicas de títulos que, além de serem marcantes na minha vida profissional, a grande maioria é desconhecida do público por falta de espaço de exibição no Brasil. Apenas 9% dos municípios brasileiros tem sala de exibição. Em Minas Gerais, pouco mais de 60 num estado de 853 municípios. Minhas dicas são: “Bicho de Sete Cabeças”, “Lavoura Arcaica”, “Serras da Desordem”, “Estrada para Ythaca”, “A cidade é uma só”, “Filhas do Vento”, “Branco sai, Preto Fica”.

Livros gosto dos mais diversos assuntos e estilos – desde biografias, empresariais, crônicas, poesias, histórias reais e inspiradoras até autoajuda, por que não?

Tem dois livros que tenho guardado no coração e na mente, lidos faz tempo, marcantes na vida, e atuais e urgentes para quem ainda não leu.  “O Pequeno Príncipe”, de Antoine Saint-Exupéry – uma narrativa poética que apresenta uma visão diferente de mundo que nos faz mergulhar no próprio inconsciente para reencontrar nossa criança. E a obra “A arte da guerra”, do general chinês Sun Tzu que carrega um profundo conhecimento da natureza humana.

Poderia compartilhar conosco uma frase ou ensinamento destinado a mulheres que assim como você pretendem ser referência em suas áreas de atuação?

Tudo começa com a vontade. Uma vez sabendo o que quer e onde quer chegar, siga em frente. Nunca desista dos seus sonhos, de seus ideais. Não abra mão de suas crenças. Acreditar na sua capacidade, ter estima elevada, ser determinada, expor suas opiniões e ser presença fazem toda diferença na conquista pessoal e profissional. Persista. O futuro é feminino.

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