Mente forte contra a autossabotagem
A procrastinação, um dos problemas ligados à autossabotagem, não tem relação com preguiça ou falta de motivação, como explica a ciência.
“A melhor inspiração é o prazo”, já dizia a célebre frase atribuída ao escritor chileno Pablo Neruda. Apesar do tom jocoso e das muitas brincadeiras que se faz com a mania de “deixar tudo para o último minuto”, esse comportamento pode se transformar em um problema em tempos marcados pelo excesso de informações.
Nunca foi tão difícil se concentrar e, claro, não procrastinar. Embora a avalanche de estímulos seja um dos grandes desafios atuais e contribua para a procrastinação, a ciência explica que deixar tarefas importantes para depois – sobretudo se isso for um hábito – está ligada à autossabotagem, um padrão que as pessoas se impõem, muitas vezes inconscientemente. Ou seja, não se trata de preguiça, má gestão do tempo ou falta de motivação. É o cérebro lindando com que ele entende como ameaça.
Mecanismos de defesa
Como explica a psiquiatra e pesquisadora Maria Fernanda Caliane, em seu canal do YouTube “Neurologia e Psiquiatria”, que ultrapassa 1,8 milhões de inscritos, a autossabotagem tem diversas razões. As principais são fuga emocional, medo do erro, medo do julgamento e experiências passadas negativas, envolvendo excesso de crítica. Há ainda a questão da autocrítica, quando a pessoa tem uma “régua muito elevada”, ligada à falsa ideia de perfeição.
“O cérebro tenta se proteger do desconforto, que está ligado a todas essas sensações ruins, e isso abre portas para a distração, para a mudança de foco e o adiamento do que importa. Tudo a troco de um prazer instantâneo. A pessoa se sente bem por um tempo, mas logo depois a culpa volta. E a autoestima vai sendo corroída aos poucos. Se for um comportamento recorrente, certamente irá afetar a produtividade e a saúde mental.”
Ela ainda alerta que, se esses sentimentos são constantes, podem também estar ligados a transtornos de ansiedade e depressão. E a qualquer sintoma mais recorrente, é importante que a pessoa procure a ajuda profissional.
No livro “Controlled Explosions in Mental Health” (“Explosões Controladas na Saúde Mental”, em tradução livre), a psicóloga e autora Charlie Heriot-Maitland reforça a ligação da autossabotagem com mecanismos evolutivos de defesa cerebrais para garantir a sobrevivência. Quando esse mecanismo é acionado de forma constante, dá lugar a um ciclo de comportamentos que parecem protetores, como adiar ou evitar responsabilidades, a autocrítica, o perfeccionismo – o que mantém a pessoa estagnada ou até mesmo regredindo em relação a um objetivo.
O que explica a autossabotagem?
Como muitas vezes a autossabotagem é confundida com preguiça, má gestão do tempo ou falta de motivação, a pessoa se culpa constantemente e tem muita dificuldade de sair desse lugar. Apesar de estar sempre ocupada e cansada, o trabalho não rende, a vida não evolui, e aí entra o esgotamento.
Para sair desse ciclo de culpa, julgamento e autocobrança excessiva, é importante conhecer a causa – ou melhor, as causas da autossabotagem. Elas estão ligadas a fatores biológicos: além dos mecanismos de defesa, pesquisas indicam que algumas pessoas têm mais propensão que outras, devido a características de sua amígdalas cerebrais. E há ainda os sintomas emocionais ligados a experiências passadas. Seja na infância ou no ambiente profissional, situações que envolveram críticas severas e prazos abusivos podem ativar o sistema de defesa cerebral em qualquer situação que envolva avaliação e feedbacks.
O medo do fracasso é outro fator que leva a autossabotagem. Ligado à ideia de perfeccionismo, à insegurança e à ansiedade, a pessoa não consegue sair do lugar, pois a cabeça não está no momento presente, só enxerga o cenário futuro e, geralmente, ele é negativo.
Compreender para avançar
Maria Fernanda Caliane orienta que a primeira medida é parar de se culpar, já que mais pressão pode piorar a situação. O próximo passo é desmascarar o que te trava – nomear os medos faz com que eles percam força e uma forma simples e muito eficiente de fazer isso é escrevê-los no papel. “Só de escrever e depois ler, a pessoa entende que é um medo exagerado.”
Na sequência, a psiquiatra recomenda o desenvolvimento de um planejamento começando por uma ação simples, com o que está ao seu alcance. Um exemplo é reservar uma hora do dia para desenvolver determinada tarefa, longe de distrações e do celular. Pode parecer pouco tempo, mas todo mundo consegue se concentrar por uma hora.
Essa é uma forma de olhar para a meta pensando no agora e não no fim da estrada, o que causa ansiedade. “Se pensarmos só lá na frente, a sensação de que vai demorar muito para chegarmos gera um sentimento ruim. O importante é pensar no hoje, no que dá para ser feito agora, não lá na frente – se eu der esse passo eu tô feliz. Focar no processo ao invés de focar no resultado ajuda a caminhar e a superar esse desconforto inicial.”
Esse método leva a algo muito mais grandioso: reconhecer a força dos pequenos passos. É essa atitude que estimula a continuar caminhando e ajuda o cérebro a sair do modo de defesa e partir para o modo construção.


