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Carreira executiva: primeira mulher à frente da Poli-USP

A prática do exemplo é a melhor forma de ensinar. Não é sempre que uma máxima secular faz sentido nos dias de hoje, mas ao observarmos a trajetória da professora e CEO do Instituto de Pesquisas Tecnológicas, Liedi Bernucci, notamos que ela permanece mais atual que nunca. Primeira mulher a assumir a diretoria da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP) em 124 anos de fundação, seu pioneirismo abre, a cada ano, novas portas para que outras estudantes sigam seus passos na ciência.

Uma das principais fontes de inspiração na engenharia e tecnologia brasileira, ela também foi a primeira mulher escolhida como professora do ano pelos alunos da Politécnica. Reformulou e introduziu disciplinas na graduação e na pós-graduação, recebeu dezenas de prêmios por trabalhos publicados em periódicos e congressos nacionais e internacionais. Reconhecida tanto pela academia como pelo mercado, sua carreira é fruto de um intenso trabalho de estudo e planejamento. A seguir, contamos mais sobre essa caminhada e sobre a visão de Bernucci sobre o futuro da educação.

Carreira executiva: a engenheira Liedi Bernucci foi a primeira mulher a assumir a diretoria da Poli-USP. Créditos foto: Folhapress

Aprender, sobretudo para a nova geração, é, hoje, um processo mais ligado à criação de experiências que façam sentido, do que aos formatos clássicos de sala de aula. Mas sabemos que não é simples adaptar metodologias históricas de ensino a novos formatos. Como a senhora enxerga esse momento de transição em relação ao ensino formal acadêmico e como instituições tradicionais como a Escola Politécnica da USP e o IPT estão se adaptando a uma realidade cada vez mais digital – pensando também em continuar gerando interesse para os jovens talentos?

Aprender não é tarefa trivial. Hoje a gente diz “aprender a aprender”, pois temos que nos conscientizar que deveremos aprender a vida toda, teremos que saber estudar e buscar informações, formular caminhos novos para soluções e problemas complexos.

A pandemia foi o período mais difícil pelo qual passamos, tivemos que nos reinventar, sem muito tempo para isso. Em 2020, eu era a diretora da Escola Politécnica. Conseguimos em uma semana retomar as aulas online, usando ferramentas e orientando professores sobre estas facilidades. Descobrimos como ensinar de forma online. Nossas aulas eram síncronas, ou seja, o professor estava dando aula com os alunos em suas residências. Esta experiência trouxe mudanças no ensino e pode-se dizer que nenhum docente manteve suas aulas como outrora, tiveram que “re-estudar” seus conteúdos e abordagens.

“Falar por falar é desonesto. Na ação é que reside a mudança.”

Foi um aprendizado coletivo, uma reflexão sobre ensino. O ensino mudou depois desta experiência e, creio, que tenha mudado para melhor. Os docentes usam exemplos práticos para ensinar conteúdos teóricos. Estamos nos readaptando, voltando ao ensino presencial, mas de uma outra forma. Creio que motivar os jovens é algo que move os docentes que mudam suas aulas, adaptando-as aos conteúdos, construindo as habilidades nos alunos.

Você foi a primeira mulher a assumir a diretoria da Escola Politécnica da USP, em 2018 (a escola tinha, então, 124 anos de fundação). Quais foram os principais desafios enfrentados em sua carreira como engenheira e como liderança da Politécnica e os comportamentos/habilidades essenciais ao longo dessa caminhada?

As mulheres, jovens ou nem tão jovens, sempre sofreram preconceitos, alguns explícitos e outros subliminares. A engenharia sempre foi uma carreira dita tradicionalmente como masculina. Isso é uma grande bobagem, pois desincentiva a formação de novos talentos na engenharia dentre as jovens mulheres. Os desafios que enfrentei na vida acadêmica por ser mulher me fortaleceram e me deram motivação para continuar e mostrar que somos todos talentosos, independente de gênero, e que precisamos da diversidade para a riqueza das soluções de engenharia.

“Procuro seguir o que me ensinaram, como ouvir mais do que falar. Parece óbvio, mas não é fácil segurar sua opinião.”

Chegar à diretoria foi a construção de uma carreira e de uma trajetória com acertos e erros. Meu maior desafio foi colocado por mim mesma: incentivar as mulheres e valorizá-las, incentivar e motivar alunos a seguirem suas carreiras, acreditarem em si e contribuírem com a sociedade e o meio ambiente. A maior habilidade de uma diretora, que acredito ser essencial para um gestor, é a serenidade para lidar com os problemas. Observar os erros e tentar corrigi-los, buscar resultados, saber para onde estamos indo e porquê tomamos este caminho. Ou seja, estar em constante alerta e questionar se as diretrizes traçadas são realmente aquelas que levam a bons resultados, construtivos, e procurar pensar fora do óbvio, para dar um salto de qualidade.

“A maior habilidade de uma diretora, que acredito ser essencial, é ter serenidade para lidar com os problemas.”

Atuando no setor da engenharia desde a década de 1980 – um ambiente tradicionalmente ocupado por homens – como você enxerga, daquela época aos dias de hoje, os avanços em termos de equidade no setor? E quais são os principais desafios?

Melhorou muito nesses últimos 40 anos. Mas tem muito a ser feito. Criar mecanismos de inclusão e dizer, repetir, refletir coletivamente sobre respeito à diversidade. Para termos respeito, temos que ter disciplina e estar atentos ao que falamos ou fazemos. Temos que acelerar os processos de inclusão, pois o tempo corre, já perdemos muito tempo. E não é só falar, mas principalmente ter ações que favoreçam a inclusão. Falar por falar é desonesto. Na ação é que reside a mudança. Trazer jovens para visitar os cursos de engenharia, seus laboratórios, desmistificar as carreiras e mostrar que podem ser exercidas por mulheres. Convocar mulheres para as comissões e ter sempre um olhar da diversidade em tudo.

Você é uma inspiração para muitos profissionais e estudantes. No seu caso, existem pessoas que te inspiraram e te inspiram até hoje (sejam personalidades ou pessoas do seu convívio acadêmico e familiar)? Por que elas te inspiram?

Dentre as mulheres, destaco minha mãe e minha irmã também. São mulheres fortes, com opiniões, que refletem sobre o mundo. Ambas me ensinaram muito. Meu pai foi um homem que me ensinou muito na vida, me deu princípios e sempre exigiu que fizesse as coisas sabendo que tudo tem resultado, bons e ruins. Minha mãe sempre permitiu que eu brincasse com carrinhos e nunca ficou me empurrando bonecas para brincar. Sempre me respeitou. Demorou para eu entender que aqueles eram brinquedos ditos masculinos. E foi muito bom demorar, pois tive a liberdade de escolher por gostar, não porque a sociedade requisitasse. Tive como inspiração homens e mulheres na vida profissional. Tive professores que me marcaram pelos exemplos, por serem pessoas diferenciadas que queriam contribuir, deixaram suas marcas na engenheira e em mim.

Como você investe hoje em seu desenvolvimento como líder? Quais as suas dicas para quem deseja evoluir na carreira de liderança?

Eu procuro seguir o que me ensinaram, como ouvir mais do que falar. Parece óbvio, mas não é fácil segurar sua opinião.  Ninguém tem solução para tudo. Há questões que requerem velocidade de ação e a possibilidade de errar torna-se maior, pois não houve tempo para uma boa análise. Quando possível, nada melhor como pensar, refletir e então ter a solução ou a diretriz. Leio muitos textos, leio alguns livros, mas o que me ajuda de verdade é uma boa meditação para cultivar a tranquilidade para melhor escolher os caminhos.

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