Um olhar sobre o Prêmio Executivo de Valor, a principal premiação da alta liderança no Brasil
*Por Adriana Prates
Realizado há 26 anos pelo jornal Valor Econômico, o Executivo de Valor é considerado a principal premiação da alta liderança no Brasil: tanto pelo prestígio que a celebração confere aos vencedores, quanto, na prática, por funcionar como um termômetro da gestão empresarial nos mais diversos setores da economia. Pensar no prêmio em si, na sua relevância e no impacto que gera em pessoas e empresas sempre me leva a algumas reflexões. Afinal, o que significa gerar valor? O que significa ser um líder que gera valor?
Naturalmente, valor passa por resultados. Empresas existem para gerar desempenho, crescer e entregar retorno aos seus acionistas. Mas, depois de mais de quinze anos acompanhando o Executivo de Valor (faço parte do júri desde 2010), aprendi que os resultados, sozinhos, não explicam uma grande liderança. Gerar valor significa, em boa medida, contribuir para a evolução, para a solidez e para a ampliação da capacidade da empresa, um legado que nem sempre aparece nos indicadores.

Adriana Prates é CEO da Dasein EMA Partners Brasil.
Essa característica me chamou atenção, em especial, na edição 2026 do prêmio (o que simboliza, também, tendências de liderança). O curto prazo continuará sendo importante, já que as empresas precisam responder ao mercado, entregar desempenho e manter competitividade. Mas o longo prazo exige um tipo diferente de liderança: exige investir em cultura, fortalecer a governança, desenvolver lideranças de forma contínua, antes mesmo que a sucessão seja necessária. Ações que constroem confiança e preparam a empresa para qualquer crise. São elas que explicam por que algumas organizações permanecem fortes durante décadas, enquanto outras se fragilizam diante da primeira grande adversidade.
Combinar esses valores é algo que faz parte da biografia dos 26 vencedores desta edição e, eu diria, das centenas de lideranças que já passaram pela história do prêmio. Homens e mulheres experientes, mas também jovens talentos que atuam em mais de 20 setores da economia. Todos entregando resultados consistentes enquanto fortalecem a capacidade da organização de continuar produzindo resultados no futuro.
O líder que permanece
Analisando o prêmio ao longo da história, a mensagem é clara: toda liderança será avaliada duas vezes, enquanto produz resultados e quando já não estiver mais presente. Ou seja, liderar bem é unir resultado e legado. Isso não mudou, mesmo com tantas transformações desde que comecei como jurada, em 2010. Naquela época, a atenção recaía principalmente sobre desempenho financeiro e resultados de gestão. Hoje, continuamos valorizando esses aspectos, mas entendemos que eles são consequência de algo maior. Passamos a olhar com mais atenção para cultura, sucessão, desenvolvimento de pessoas, governança, inovação e qualidade das decisões. Em outras palavras, para aquilo que permanece.
Essa evolução acompanha o que também observamos no recrutamento executivo. As organizações deixaram de procurar executivos capazes de administrar o presente; procuram líderes capazes de preparar a empresa para um futuro mais complexo do que o atual. Líderes que não deixam apenas resultados, mas capacidade de inovar, de desenvolver pessoas, de atravessar crises e de continuar crescendo.
Qualidade do julgamento
Dentre as várias perguntas que recebo sobre o Executivo de Valor, muitas se relacionam ao perfil ou à personalidade das lideranças vencedoras. Mas sinto informar que essa questão não tem uma resposta simples, pois raramente os melhores líderes se parecem entre si. Ao longo dos anos, vi perfis completamente diferentes serem reconhecidos pelo prêmio: alguns mais analíticos, outros intuitivos; uns que lideram pelo diálogo, outros pela objetividade. Não existe um único estilo de liderança.
Contudo, há um caminho que muitas lideranças têm seguido e que gostaria de compartilhar – diz respeito sobre a qualidade do julgamento. Essas lideranças têm investido em aprendizado continuo para saber interpretar contextos complexos, integrar perspectivas diferentes, tomar decisões difíceis e, assim, assumir com mais tranquilidade a responsabilidade pelas consequências dessas decisões.
Também tenho percebido uma mudança importante: o protagonismo não está mais concentrado na figura do líder, está distribuído pela organização. Esse é um ótimo exemplo de maturidade da liderança, que compreende que quanto mais forte é uma organização, menos ela depende de uma única pessoa.
Experiência e juventude
Quero destacar ainda uma característica marcante do Executivo de Valor: os prêmios especiais para presidente de conselho e jovem liderança, perfis tão diferentes quanto importantes para as reflexões sobre liderança. Ao premiar, respectivamente, a atuação da conselheira do Santander, Deborah Vieitas, e do jovem CEO da Daki, Rafael Vasto, o prêmio reforça que maturidade e juventude não competem entre si. As organizações mais preparadas para o futuro não escolhem entre uma e outra, elas conseguem integrar essas duas forças.
Talvez seja justamente isso que aproxima trajetórias tão diferentes quanto as de Vieitas e Vasto: ambos demonstram que liderança não está na posição ocupada nem no tempo de carreira, mas na capacidade de ampliar a capacidade das pessoas e da organização.
Um novo líder para uma nova era
Por fim, quero destacar o que disse Lynne Murphy-Rivera, diretora da AESC para as Américas, sobre esta edição do prêmio: “entramos numa nova era de negócios, uma que exige um novo tipo de liderança.” Concordo plenamente. Durante muito tempo, valorizamos líderes que tinham respostas para tudo e felizmente isso tem mudado. Talvez o novo líder seja aquele que formula as perguntas certas, reúne diferentes perspectivas e cria ambientes onde a inteligência deixa de ser individual para se tornar coletiva. Liderança, hoje, significa menos controlar pessoas e mais construir contextos onde elas consigam produzir seu melhor trabalho, hoje e no futuro.
*Adriana Prates é CEO da Dasein EMA Partners Brasil


