“A retomada da Samarco foi, antes de tudo, uma jornada de reconstrução de confiança”
Engenheiro metalúrgico com mais de 30 anos na mineração, Rodrigo Vilela assumiu a presidência da Samarco em 2018, no momento mais crítico de sua história. Nesta entrevista à Dnews, ele fala sobre a reconstrução da empresa, a mudança de postura e a retomada de confiança – momento que se conecta à uma mudança positiva vivenciada pelo setor mineral, que está no centro da transição energética.
Historicamente questionada, a mineração vive uma transformação positiva: está no centro da transição energética e do desenvolvimento sustentável. Com o crescimento na demanda global de recursos minerais, companhias em atuação no Brasil, como a Samarco, têm condições de elevar o país ao posto de protagonista mundial do setor. Qual o papel das empresas – e das lideranças – para aproveitar essa oportunidade?
Rodrigo Vilela: Tenho dito com frequência que não existe transição energética sem a mineração. Mais do que extrair e beneficiar minério de ferro, a Samarco entende que a mineração exerce um papel estratégico para o futuro do planeta: da viabilização da transição energética ao avanço tecnológico.
Vivemos um momento decisivo para reposicionar o setor. A mineração precisa ser vista não apenas como extração, mas como geração de valor e contribuição concreta para a descarbonização e o desenvolvimento sustentável.
O Brasil é um gigante geológico, mas ser gigante não é o mesmo que ser potência. E essa distinção define o papel das empresas e das lideranças neste momento: transformar potencial em estratégia, cultura e capacidade de execução.
A transição energética, a digitalização e o avanço tecnológico ampliam a relevância da mineração no mundo atual. O mineral deixou de ser apenas uma commodity e passou a ser uma infraestrutura crítica. Ao mesmo tempo, o mercado evoluiu: não basta entregar o produto; é preciso demonstrar pegada de carbono, impacto hídrico, rastreabilidade e legitimidade social.

Rodrigo Vilela é CEO da Samarco. Foto: Pedro Vilela
No ciclo de expansão dos anos 2000, ampliamos exportações, mas deixamos valor relevante pelo caminho. Priorizamos escala e perdemos oportunidades de agregar tecnologia, capturar valor localmente e fortalecer a cadeia produtiva. Esse é um erro que não podemos repetir.
Cabe às lideranças transformar reservas em vantagem competitiva. Isso exige decisões responsáveis, equipes preparadas e uma cultura baseada em segurança, sustentabilidade e excelência operacional. Também envolve tecnologia para reduzir riscos e desenvolver projetos sólidos, alinhados a um ambiente regulatório cada vez mais exigente. A resposta não está em flexibilizar regras, mas em construir operações reconhecidas como legítimas pela sociedade.
Na Samarco, esse direcionamento se traduz em um novo ciclo: aprovamos um investimento de R$ 13,8 bilhões para retomar 100% da capacidade produtiva instalada até 2028, em bases diferentes – com mais segurança, tecnologia, sem barragens de rejeitos e com um produto alinhado à descarbonização da siderurgia global. Também significa fortalecer a cultura interna, desenvolver nossos empregados e consolidar uma empresa preparada para os desafios do futuro.
Como foi o processo de retomada, iniciado em 2020, e como tem sido o impacto nas comunidades, meio ambiente e mercado?
Rodrigo Vilela: A retomada da Samarco foi, antes de tudo, uma jornada de reconstrução de confiança – valor que passou a orientar todas as nossas decisões. Mais do que reativar operações, foi necessário reconstruir relações, rever processos e fortalecer uma nova cultura organizacional.
Embora já tivéssemos as licenças necessárias ao final de 2019, optamos por retomar de forma gradual e segura. Voltamos apenas em dezembro de 2020, após concluir a implantação do sistema de filtragem, que nos permite operar de forma diferente: sem barragens de rejeitos e com disposição a seco da maior parte do material gerado.
Reiniciamos com 26% da capacidade produtiva instalada e, ao longo dos anos, avançamos de forma consistente. No fim de 2024, alcançamos 60% da capacidade, com a reativação de ativos em Minas Gerais e no Espírito Santo. Em 2025, consolidamos esse avanço com a produção de 15,1 milhões de toneladas.
Agora, com a aprovação do chamado Momento 3, vamos atingir 100% da capacidade produtiva instalada até 2028, com investimentos em modernização, ampliação da filtragem, nova pilha e reativação de plantas, sempre com foco em segurança, eficiência e evolução tecnológica. Esta jornada é fruto de um planejamento estratégico focado em segurança do nosso negócio, da sociedade e de nossos acionistas.
Nos territórios onde atuamos, ampliamos nossa presença com iniciativas voltadas à qualificação profissional, empreendedorismo e inclusão produtiva, buscando fortalecer a autonomia das comunidades e gerar oportunidades sustentáveis no longo prazo.
Desde a retomada, também temos contribuído de forma relevante para a economia. Já foram gerados R$ 8,83 bilhões em tributos a partir da aquisição de bens e serviços, e hoje cerca de 20 mil pessoas trabalham nas nossas operações em Minas Gerais e no Espírito Santo.
No campo ambiental, avançamos para um modelo mais sustentável, com operação sem barragens de rejeitos, elevada recirculação de água, uso de energia elétrica renovável e maior reaproveitamento de materiais no processo produtivo.
Mais do que retomar nossas operações, buscamos ser reconhecidos como uma empresa que opera de forma diferente – com segurança, inovação, escuta ativa e compromisso com a evolução contínua do nosso modelo de atuação.
A régua da sustentabilidade na mineração subiu e é notável o avanço em processos produtivos mais limpos. A Samarco, por exemplo, tem uma produção robusta de “pellet feed”, conhecido como minério verde. Além do pellet feed e das pelotas, quais são as outras iniciativas da empresa que favorecem o meio ambiente e um futuro mais sustentável?
Rodrigo Vilela: As pelotas de minério de ferro da Samarco têm papel relevante na descarbonização da siderurgia global, especialmente nas rotas de redução direta, que demandam matérias-primas de maior qualidade e permitem menores emissões. No entanto, o compromisso ambiental da empresa vai além do produto.
Na frente de descarbonização operacional, avançamos na substituição gradual de combustíveis fósseis. Introduzimos o bio-óleo como alternativa energética, combinamos biomassa com carvão mineral e ampliamos o uso de gás natural como combustível de transição. Como resultado, reduzimos em 44% as emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE) em relação a 2015. Além disso, utilizamos exclusivamente energia elétrica proveniente de fontes renováveis, eliminando emissões associadas à energia adquirida.
Também fortalecemos práticas de economia circular, com reaproveitamento de resíduos como insumos produtivos. Um exemplo é o uso de resíduos da lavra de mármore na produção de pelotas, substituindo parcialmente o calcário e promovendo a integração com redes produtivas regionais. Internamente, ampliamos a reutilização de rejeitos arenosos em projetos de engenharia, reduzindo a necessidade de novos insumos.
Na gestão hídrica, operamos com elevado nível de recirculação de água, chegando à recirculação de 100% no Complexo de Ubu. Paralelamente, mantemos investimentos consistentes em inovação, com dezenas de projetos voltados a tecnologias como automação, inteligência artificial e soluções para disposição e reaproveitamento de rejeitos.
Tudo isso exige também o desenvolvimento contínuo das equipes, com fortalecimento de competências técnicas e de gestão. Sustentabilidade, para nós, não se resume a metas ambientais: ela está presente na forma como tomamos decisões, inovamos e mobilizamos pessoas em torno de um propósito comum.
Engenheiro metalúrgico com mais de 30 anos na mineração, o senhor assumiu a presidência da Samarco há 8 anos, em um dos momentos mais críticos da empresa. Revendo a sua trajetória profissional, quais foram suas maiores conquistas e, no caminho oposto, os desafios que mais o ensinaram?
Rodrigo Vilela: Assumi a presidência da Samarco em 2018, em um dos momentos mais desafiadores da sua história: a empresa estava com suas operações paralisadas desde 2015 e lidava com as consequências do rompimento da barragem de Fundão, que impactou pessoas, comunidades e o meio ambiente. Era um contexto de grande responsabilidade e de necessidade urgente de transformação.
O maior aprendizado foi a importância da humildade e da escuta ativa. Reavaliar decisões e ajustar rotas não é fragilidade, mas responsabilidade.
Destaco também o trabalho de cultura interna que iniciamos logo quando assumi a Presidência, focado no fortalecimento da confiança entre os empregados e no resgate do senso de pertencimento. Naquele momento, direcionamos esforços para reconhecer nossas forças e vantagens competitivas, ao mesmo tempo em que encaramos, com clareza, nossas fraquezas e limitadores – e aquilo que não queríamos perpetuar em nossa cultura.
A partir desse movimento, transformamos aprendizados em consistência, integramos nossas frentes de atuação e fortalecemos uma cultura capaz de sustentar nossas escolhas e o futuro da Samarco.
Também conduzimos a reconstrução e o reposicionamento estratégico da empresa, estruturando um modelo de governança integrado – envolvendo risco, compliance, auditoria, sustentabilidade e relacionamento institucional.
A partir daí, os resultados vieram como consequência: a retomada produtiva, a evolução dos indicadores operacionais, mesmo após cinco anos de paralisação, e o encerramento antecipado da Recuperação Judicial.
Se tivesse que destacar uma principal conquista, não seria um indicador operacional, mas a reconstrução da confiança. A decisão de retomar as operações apenas após a implantação do sistema de filtragem, mesmo com as licenças já obtidas, foi um marco desse novo posicionamento. Representou uma mudança concreta de postura.
Aprendi que liderar, especialmente em crise, exige coragem para tomar decisões baseadas em dados, assumir responsabilidades e fazer escolhas que privilegiem o longo prazo – e que só se sustenta com o engajamento das pessoas, confiança e diálogo. Carrego essa visão comigo: a técnica sustenta as decisões, mas é a liderança que lhes dá direção e propósito.
Admirado e premiado como uma das melhores lideranças brasileiras, o senhor é uma inspiração para muitos executivos e executivas. Na sua visão, o que leva um estilo de liderança a ser considerado exemplar? De onde o senhor busca inspiração para liderar?
Rodrigo Vilela: Sempre acreditei que liderar vai além de conduzir ou gerir pessoas; trata-se de inspirar, desenvolver e compartilhar aprendizados – formando novas lideranças e criando um ambiente em que as pessoas possam crescer, contribuir e se sentir parte do propósito da organização.
Valorizo a capacidade de construir relações de confiança, gerar conexão e lidar com diferentes perspectivas. Isso só é possível em ambientes seguros, nos quais as pessoas se sentem respeitadas e livres para contribuir.
Como engenheiro, também valorizo o foco e a objetividade, a fim de priorizar o que realmente gera impacto e evitar dispersão de esforço. Ao mesmo tempo, acredito na importância de equilibrar resultados com empatia, mantendo clareza de objetivos sem perder o respeito e a escuta.
Minha principal fonte de inspiração são as pessoas com quem trabalho e aprendo diariamente, assim como os ensinamentos da minha trajetória profissional – especialmente pela convivência com grandes líderes -, da minha formação e dos desafios enfrentados, sobretudo aqueles que exigiram reflexão e mudança de postura.
No fim, o que define uma liderança é o legado que ela constrói: não apenas em resultados, mas nas pessoas que desenvolve e no impacto que deixa no ambiente onde atua. Para mim, liderança exemplar é aquela que combina consistência, simplicidade e capacidade de transformar o ambiente ao seu redor.


