A ansiedade só piora quando vivemos na velocidade 2x
*Por Alexandre Coimbra Amaral
A ansiedade é uma emoção humana que tem se manifestado de forma absolutamente particular no século XXI. Portanto, não estamos falando da mesma sensação quando voltamos às nossas memórias infantis, ou quando escutamos histórias das pessoas que viveram nas décadas anteriores à virada do milênio. Algo aconteceu de muito significativo: a velocidade desumana com que nos sentimos pressionados para entregar resultados, sejam eles profissionais ou pessoais (um corpo perfeito, a ida à academia de ginástica, o livro lido ou a série do momento maratonada).
Vivemos como se este modo acelerado fosse nos entregar algum sucesso incontestável. O que acontece, de fato, é que antes de chegarmos a qualquer topo dessa montanha do sucesso, estamos sem ar. A exaustão contínua, a dificuldade de descansar o que parece indescansável, tem produzido, de forma inédita, um tipo de ansiedade que tem adoecido nossos corpos e almas.

Alexandre Coimbra Amaral é psicólogo, palestrante e consultor de Saúde Mental em empresas e escolas de todo o país, escritor e podcaster.
O mecanismo desta ansiedade contemporânea é o seguinte: estamos sempre devendo algo ao mundo. Estamos numa sensação de débito com as relações, com a carreira, com a vida afetiva, com os amigos, com o que esperam de nós em qualquer de nossas fases de vida. E essa cobrança por performance não é equivalente para todos, haja vista que existem camadas de identidade que se sentem muito mais cobradas (por exemplo, mulheres em relação aos homens). Essa conta que não fecha, que nos invade com um pensamento ansioso “você deveria fazer mais do que está fazendo”, vem acompanhada de sensações profundamente desagradáveis no corpo.
Somos frequentemente levados a pensar num futuro catastrófico, que nos espera porque não temos sido a nossa “melhor versão” (como eu odeio essa expressão, que caotiza mentes querendo dizer algo supostamente positivo). Esse funcionamento não é factível, precisamos de uma contracultura urgente que seja sustentável com as demandas inevitáveis da vida (como trabalho e família), mas que também permita que o tempo seja aproveitado com vias ao prazer, à experiência contemplativa e leve, sem culpa de descansar ou não fazer nada. A criminalização da pausa é parte daquilo que tem apertado o peito e feito que não deixemos de pensar sobre o que precisamos fazer, mais e mais.
Uma das chaves para a melhora da ansiedade é fazer uma distinção precisa entre ansiedade e urgência. Há indícios de que nosso cotidiano mais banal tem sido visitado frequentemente por esta mistura de conceitos. O WhatsApp, por exemplo, mostra as atualizações a cada segundo, de forma indiferenciada. Qualquer frase ali merece nossa atenção da mesma maneira. Multiplique esta visão da tela do aplicativo no seu celular por dias, meses e anos. Acrescente a isso a sensação de que, no WhatsApp, o outro está sempre disponível. Resultado: tudo passa a ser urgência, e quando a resposta não vem automaticamente, o remetente se sente desqualificado e desprestigiado. É como se todas as demandas de mensagens tivessem obrigatoriamente que ser respondidas no aqui e no agora. Há urgências, sim, mas há ansiedades que encontram no WhatsApp uma maneira de serem canalizadas. Nós, sem que nos déssemos conta, nos transformamos em ansiosos pedindo urgência a todas as pessoas, ainda que a mensagem não contenha esta palavra-chave em caixa alta. Merecemos mais da vida: tempo para não responder, tempo para sair da tela e conversar pessoalmente, tempo para ficar em absoluto silêncio contemplativo, ou para exercitar o direito à solitude.
Sair dessa ilusão de controle que o WhatsApp produz, que todos estamos sim, nos comunicando, conversando e sendo escutados por todos os interlocutores que ali estão, é fundamental para fazermos escolhas que incluam a vida lá fora. De fato, a ansiedade se alimenta dessa conexão wifi que é o contrário da conexão presencial, lenta, atenta, que escuta e fala, que tem palavra e silêncio, e que não pode nem consegue ser feita com centenas de pessoas. O tempo da vida que faz sentido não se mede através dos ponteiros do relógio, mas das sensações de bem-estar que vivemos quando estamos minimamente deslocados da velocidade 2.0 das mensagens de WhatsApp. Não merecemos que este seja o nosso referencial ético para as relações. Afinal, tudo o que nos faz sentir vivos, íntegros e presentes na própria vida pede tempo para ser sentido, com cada pedaço do corpo e da alma.
*Alexandre Coimbra Amaral é psicólogo, palestrante e consultor de Saúde Mental em empresas e escolas de todo o país, escritor e podcaster. É contratado como psicólogo de programas da Rede Globo há oito anos. Autor de seis livros, incluindo “Toda ansiedade merece um abraço”.


