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Dasein convida: Daniel Hosken

O cérebro que precisa recomeçar

 

Por que temos tanta necessidade de esperar “o novo ano” para mudar? E como usar essa energia simbólica a nosso favor.

 

Todo fim de ano, fazemos promessas. Cuidar da saúde. Dormir melhor. Ler mais. Mudar de emprego. Estar mais presente. E quase sempre começamos essas promessas com a mesma frase: “No ano que vem…”

Recentemente, em uma consultoria, um executivo me disse: “Daniel, estou só esperando o ano virar para mudar. Janeiro vai ser diferente.” Em outra ocasião, uma gestora confidenciou: “Quando eu entregar esse projeto, peço demissão. Não aguento mais isso aqui.”

Essas falas são mais comuns do que parecem. Elas revelam algo curioso sobre o comportamento humano: a crença de que mudar é mais fácil quando há um novo ciclo começando. O “ano que vem”, “segunda-feira” ou “depois das férias” tornam-se portais imaginários de recomeço. Mas afinal, por que nosso cérebro se apega tanto a essas datas simbólicas? Será que de fato é mais fácil mudar quando há um marco no calendário?

Como neurocientista, pesquisador do comportamento humano e como alguém que, em vários momentos, se apoia nesses “pontos de virada” para ajustar a rota, busquei entender o porquê dessa necessidade tão humana de esperar o novo ciclo para mudar.

Do ponto de vista biológico, somos seres rítmicos. Vivemos entre ciclos: o ritmo circadiano regula nosso sono e vigília; o batimento cardíaco dita o compasso da vida; os ciclos hormonais, as estações do ano, os ritmos cerebrais e até as flutuações de energia mental ao longo do dia nos lembram que a natureza não é linear, ela pulsa.

Daniel Hosken é neurocientista, pesquisador do comportamento humano e especialista em produtividade e bem-estar.

Embora a mudança, do ponto de vista neurobiológico, não dependa de datas, o cérebro gosta de padrões. Ele gosta de referências temporais para organizar experiências e dar sentido à passagem do tempo. Assim, um novo ano se torna um gatilho simbólico que sinaliza uma oportunidade de reconfiguração, algo como um reset cognitivo.

Pesquisas mostram que cerca de 80% das resoluções de Ano Novo falham antes de fevereiro. Nas academias, o pico de matrículas ocorre em janeiro, mas o de desistências, em março. Isso não significa falta de força de vontade; significa que querer não basta. Nosso sistema dopaminérgico é ativado pela antecipação da mudança, mas não necessariamente pela manutenção dela. Em outras palavras: o cérebro adora a ideia de mudar, mas se assusta com o esforço que a mudança exige. Sem um plano concreto e realista, o entusiasmo de dezembro se dissolve na rotina de fevereiro.

Apesar disso, os períodos de transição, como o final e início de ano, são, sim, momentos privilegiados para a reflexão. Pausar, olhar o que foi feito, reavaliar o que faz sentido, e ajustar o que precisa mudar. Especialmente em uma rotina acelerada que muitas vezes não nos permite pensar com calma.

Mas é preciso cuidado: a pausa deve ser intencional. Não é apenas descansar do cansaço, e sim criar espaço mental para reorganizar ideias e reconectar o propósito. Como costumo dizer aos meus clientes: “O cérebro não precisa de mais tarefas, ele precisa de mais sentido.”

Se quiser aproveitar a energia dos novos começos sem depender deles, experimente 10 práticas simples que aplico em minha própria rotina:

Não superestime o que pode fazer em uma semana, nem subestime o que você pode fazer em um ano. Mire alto a longo prazo e seja realista a curto prazo.

Todo planejamento é lindo, até você tomar o primeiro choque de realidade. Crie cenários otimistas, pessimistas e realistas, e se prepare para adversidades, urgências, imprevistos.

A única forma de fazer tudo, é fazendo malfeito. Saiba escolher o que realmente vale a pena seu gasto de energia e quais “nãos” você vai precisar dizer.

Revisite seus combinados. O que você prometeu a si mesmo no início do ano ainda faz sentido hoje? Saiba ser flexível a partir disso.

Foque em curto prazo e no que é controlável. Foque nas ações diárias, não nas intenções distantes e que dependam mais de terceiros do que de você.

Valorize a constância. O cérebro aprende mais com 10 minutos diários do que com 3 horas uma vez por mês.

Celebre micro vitórias. Cada movimento é um sinal de neuroplasticidade em ação e o cérebro gosta de sentir evolução durante o processo.

Separe diariamente momentos para pausas, descansos, revisões. Todo dia revisite o que foi feito e faça alguns rituais de início e encerramento de ciclo.

Feito é melhor que perfeito. Um bom ciclo começa com pequenas ações agora, não apenas nas férias.

Cuide de sua saúde. Sem ela, todas as dicas anteriores não se sustentam a longo prazo.

Todo dia é, biologicamente, uma nova chance de mudar. E é nesse silêncio interno entre um ciclo e outro, entre um pensamento e outro, que a transformação realmente acontece. Porque a virada real não está no calendário, mas na sua mente.

 

Daniel Hosken é neurocientista, pesquisador do comportamento humano e especialista em produtividade e bem-estar.

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