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A liderança autêntica e o desafio da busca pessoal

“Quando escrevo, repito o que já vivi antes. E para estas duas vidas, um léxico só não é suficiente. Em outras palavras, gostaria de ser um crocodilo vivendo no Rio São Francisco. Gostaria de ser um crocodilo porque amo os grandes rios, pois são profundos como a alma de um homem.”

Essa frase, do escritor Guimarães Rosa, um dos mais importantes e mais autênticos literatos brasileiros, me leva a pensar na essência da autenticidade. Na sua importância para a construção de nossa identidade, na relação com as nossas atitudes, forma de pensar, a condução de nossa vida e, claro, de nossa carreira. Afinal, como nos espelhar em bons exemplos, mas sem perder a autenticidade?

Recentemente li um artigo na Harvard Business Review que abordava um tema que dialoga com a questão acima. O texto dizia que nos últimos 50 anos, especialistas realizaram mais de mil estudos para tentar determinar traços de personalidade de líderes aclamados. Porém, nenhum desses estudos gerou um perfil claro da liderança ideal. Para os autores – os estudiosos Bill George, Peter Sims, Andrew McLean e Diana Mayer -, felizmente as pesquisas não entregaram a “fórmula do líder perfeito”. Óbvio, não há como ser autêntico seguindo receitas.

O estudo, que também serviu como fonte para reportagem de nossa revista Dnews de dezembro, falou do valor de aprender com a experiência alheia, mas destacou que o profissional jamais terá sucesso se tentar ser como os outros. Segundo os autores da pesquisa, desenvolver as próprias habilidades, em sua forma genuína, e alcançar a autenticidade é um desafio e exige um esforço pessoal muito grande. Vamos abordar como essa jornada pode acontecer.

“Para ser autêntico é preciso buscar quem se é no íntimo e a primeira coisa a ser feita é a auto exploração. Não é um exercício fácil, requer empenho, esforço e abertura mental. Muitas vezes quando se entra no “vale das sombras” e se depara com traços da própria personalidade, que não são dignos de se admirar, só conseguirá ser autentico aquele que conseguir confrontar essas verdades secretas e se desafiar a ser alguém melhor. A partir desse avanço não se pode aceitar ser apenas uma copia imperfeita de si mesmo, será necessário desenvolver uma prática de bons comportamentos, criar uma rotina focada na evolução pessoal, pois será nessa direção que o líder autêntico passa a se movimentar.”

Voltando ao estudo, é importante mencionar que os 125 dirigentes ouvidos na pesquisa falaram abertamente sobre como atingiram seu potencial e mostraram com franqueza perdas e ganhos, lutas pessoais e histórias de vida. Após uma longa e elaborada análise, os pesquisadores concluíram que esses profissionais não apontavam nenhum estilo, talento ou característica universal na raiz de seu sucesso. A liderança autêntica emergia da história de vida de cada um deles. Essas pessoas estavam constantemente testando a si mesmas por meio de experiências na vida real, se reformulando constantemente pra entenderem quem, no fundo, eram. Ao percorrerem esse caminho, elas descobriram o propósito de sua liderança e que a autenticidade as tornavam mais eficazes.

Outras características marcantes das lideranças autênticas, reveladas na pesquisa, é seu poder de superação (elas nunca se fazem de vítima e usam as experiências negativas para darem sentido à própria vida); a paixão por seus objetivos; o cultivo de relações significativas de longo prazo; e autodisciplina para produzir resultados. Destaco ainda a relação saudável dos bons líderes com o poder. São pessoas que têm a plena compreensão de que o poder precisa ser compartilhado. Conseguem ter alegria ao perceber que criou sucessores, que o poder não vem apenas da própria compreensão, mas também de um reconhecimento explicito de como cada pessoa o ajudou em toda a trajetória de vida.

“Quando falamos em líderes bem sucedidos fazemos, muitas vezes, uma associação imediata e equivocada com o sucesso financeiro que eles obtiveram, ou mesmo com grandes feitos e realizações. Será mesmo? Se assim considerássemos seriamos limitantes e limitadores ao mesmo tempo. E os lideres do cotidiano, que às vezes não conduzem nenhuma grande orquestra, mas são peritos em tocar o nosso coração e nos ajudam a despertar a nossa vocação?”

É sempre válido ouvir as palestras dos chamados “cases” de sucesso ou pessoas que vivenciaram uma grande superação, com histórias de vida únicas e notáveis. Mas você precisa concordar que se tivermos como foco nos posicionar junto a esse grupo de exceções, seguramente ficaremos muito frustrados. E até mesmo seríamos injustos conosco, nos depreciando e as vezes até nos maltratando, sem reconhecermos toda obra que já fomos capaz de originar. Termos pessoas como referencia é algo viável e natural, porém a comparação paranoica, entre nós e o outro, nunca vai nos conduzir a uma presença autentica, espontânea e única no nosso jeito de ser e agir. A comparação saudável é quando nos comparamos com nós mesmos. Notamos mudanças e celebramos esses progressos. Aí sim, estaremos orbitando nas nossas capacidades, flertando com as possibilidades, e certamente fazendo diferença no nosso mundo, no pedaço do mundo que a nossa crença habita.

O anonimato às vezes pode até incomodar, mas tenhamos paciência, essa necessidade doentia de se destacar, rouba energia de qualquer ser humano, não é mesmo? Sejamos mais compassivos com nós mesmos! O anonimato nos protege e nos abre as portas para que possamos criar, testar e até mesmo nos arriscar.

É claro que a autenticidade está ligada a auto aceitação, um agir natural, espontâneo e levemente desinteressado. Às vezes até mesmo as nossas bizarrices podem ser convertidas naquilo que os outros possam nomear com um traço, um charme pessoal e especial. Nada de ficar decorando essas receitas infindáveis de como ser um “líder de sucesso”. Isso só vai fazer você ser um a mais na multidão, querendo se destacar, por reproduzir o comportamento padrão.

No início desse artigo destaquei as sábias palavras do nosso célebre escritor Guimarães Rosa ao nos exortar a mergulharmos de forma profunda em nós mesmos! É certo que esse mergulho requer arrojo e ousadia, mas posso te dizer sem nenhuma utopia, esse ato, nos fará emergir por inteiro, seja de frente, verso, de reverso e são dessas dimensões da consciência de nos perceber quem somos, que a nossa alma se recicla, se recria, se inspira, se despe, se lapida e se diferencia.

“Toda essa aprendizagem pode trazer intrinsecamente, como verdade uma força sagaz: a autenticidade só se adquire quando se tem coragem!”

*Adriana Prates – presidente da Dasein Executive Search e integrante do Conselho da AESC responsável pelas Américas.

*O artigo na íntegra também está disponível aqui!

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