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Uma conversa com Henrique Bueno, referência em ciência da felicidade

“Uma vida de mais bem-estar e felicidade começa pelas escolhas que cada indivíduo faz”

 

Quando o assunto é autocuidado, há uma grande distância entre “saber o que fazer” e “fazer o que tem que ser feito”: seja de forma individual ou coletiva, nas empresas. Esse é o ponto de partida do trabalho de Henrique Bueno, uma das maiores referências brasileiras no estudo científico da felicidade, do bem-estar e saúde mental. Com atuação em grandes empresas no Brasil, Estados Unidos, Portugal e Colômbia, ele vem provando que autocuidado tem muito mais a ver com vida real, do que com ideais de perfeição. Confira, a seguir, essa conversa na íntegra:

Henrique Bueno é uma das maiores referências brasileiras no estudo científico da felicidade.

Por mais que as empresas tenham investido em saúde mental, os índices de burnout não param de subir: dados do Ministério da Previdência Social mostram que os afastamentos por burnout no Brasil cresceram 823%, entre 2021 e 2025. O que explica esse avanço do esgotamento mental nas empresas?

A crise de saúde mental é multifacetada. Não é necessariamente culpa da empresa, apesar dela poder, a qualquer tempo, ser uma ofensora da saúde mental ou um agente positivo que ajude a blindar os riscos.

É importante pensar na vida contemporânea como um todo, uma vida que está cada vez mais desconectada de pessoas e hiperconectada na tecnologia, marcada pela busca constante por prazer. Muitas vezes, falta sentido e propósito.

A empresa não é obrigada a fazer ninguém feliz, mas ela é sim obrigada a garantir ambientes seguros, onde as pessoas possam viver sua humanidade. E elas devem também combater condutas ligadas ao crescimento do esgotamento mental, como a altíssima pressão, longas jornadas, sem nenhum equilíbrio com a vida pessoal, processos desestruturados, remuneração inadequada, e, acima de tudo, lideranças toxicas, que não conseguem construir um ambiente de segurança psicológica.

O esgotamento mental também atinge as lideranças. Segundo levantamento da Harvard Business Review, 96% dos líderes relatam níveis elevados de estresse relacionados ao excesso de trabalho e 33% afirmam estar cronicamente esgotados – isso em escala global. Se a liderança está exausta, isso se refletirá na equipe, certo? Pensando nas lideranças, o que pode ser feito?

Sem dúvida as lideranças têm sofrido demais com o esgotamento. Ao líder é atribuída uma responsabilidade gigantesca para resultados, produtividade, resolução de complexidades. E a liderança também é cobrada por garantir ambientes mais positivos para os seus colaboradores. E é claro que esse impacto positivo tem que começar por ele: se ele não consegue trazer esse impacto para a própria vida, como vai impactar o outro?

É fundamental, portanto, que as empresas olhem para as lideranças e cuidem de sua saúde mental. O primeiro passo deve ser a preparação, o treinamento focado no desenvolvimento do autocuidado, para que os líderes sejam protagonistas do seu bem-estar. E, então, possam ser embaixadores de uma cultura de saúde mental, emocional, física.

Mas aqui existe um problema: é muito fácil a empresa cobrar isso do líder sem dar as condições necessárias para tal. É fundamental que a empresa revise processos, carga horária, remuneração, maneiras de estabelecer critérios de reconhecimento e invista em treinamento para que os líderes cuidem de si mesmos.

Você afirma que felicidade não é motivação. É um método apoiado pela ciência. Poderia falar mais sobre esse método e como ele pode contribuir para o combate ao esgotamento mental?

É um método que se baseia no indivíduo. Como falei acima, a crise de saúde mental é multifatorial, está ligada a vários agentes externos, mas está muito ligada à forma que o indivíduo enxerga e age em relação a própria vida. Portanto, a empresa, sozinha, sem olhar para o aspecto humano, não consegue solucionar esse problema.

Uma vida mais feliz, de mais bem-estar e saúde mental começa pelas escolhas que cada indivíduo faz. Para conseguirmos elevar uma cultura de bem-estar, é preciso começar pelo indivíduo.

Falando das empresas, começamos pelas lideranças, incentivando a prática de autocuidado e uma vida mais equilibrada, para que consigam fazer escolhas que envolvam o seu autocuidado. Cuidando melhor de si, as lideranças são capazes de cuidar melhor do outro. Olhando para o indivíduo como membro de um time que sim, tem que dar resultado, mas acima de tudo com um ser humano.

Qual a importância das empresas olharem para a felicidade e o bem-estar, sem estigmas ligados à autoajuda ou ao excesso de positividade, a chamada “positividade tóxica”?

A empresa que não olha hoje para o bem-estar e para a felicidade de um jeito livre e aberto está fadada a não atrair talentos. As pessoas, em especial as novas gerações, não estão mais dispostas a abdicarem de sua felicidade para ter um salário e resultados.

Há um engano no próprio conceito de felicidade – muitos associam felicidade com autoajuda, por achar que felicidade é um lugar maravilhoso, onde tudo é perfeito. Felicidade não é isso. Felicidade é viver a vida como ela é, mas com espaço para se viver e perceber o positivo.

As empresas vencem o estigma quando entendem que o trabalho feliz não é aquele que não tem cobrança, ou não tem dificuldade. Mas aquele que tem momentos de pressão, mas também tem equilíbrio, respeito e valorização do indivíduo.

Um exemplo é a forma de olhar para a NR-1: podemos enxergar só os riscos psicossociais, a necessidade de medir riscos, gerir riscos e evitar um passivo. Ou eu podemos olhar a NR-1 pensando em vantagens psicossociais, em como se apropriar do fato de que, se construirmos ambientes seguros, de valorização, o resultado vai muito além. Então eu posso continuar fazendo “compliance” para cumprir a lei, ou eu posso ir além, e me apropriar das vantagens de cuidar das pessoas e construir ambientes melhores, mais produtivos, com mais resultados.

Você é uma das maiores referências no estudo científico da felicidade no trabalho, tem uma agenda requisitada, segue uma jornada repleta de compromissos, tal qual as lideranças que nos leem. Partindo da sua própria experiência, como conciliar as muitas responsabilidades sem se esgotar? Qual o seu conselho?

É difícil dar um único conselho, mas eu diria o autocuidado. Vivemos em um mundo onde existe uma pressão tão exacerbada por produtividade, por entrega, que começamos a achar que o ócio, que o descanso, e até o sono são desnecessários. OU seja, o líder que quer construir uma cultura organizacional mais feliz, mais positiva, ele deve começar olhando para si.

Vou dar um exemplo. Sou uma pessoa muito introspectiva e sempre após uma palestra, no momento em que desço do palco e dezenas de pessoas vêm ao meu encontro, para conversar, há um gasto gigantesco de energia. Eu converso com todo mundo, atendo os pedidos super bem. Mas depois que faço isso, me dou o direito ao que chamo de “nicho restaurativo”. Escolho um espaço para ouvir uma música, para passar um dia descansando, para passar um final de semana sem fazer nada. Costumo desligar o celular na hora do almoço, procuro espaço ao longo do meu dia para dar pausas, para o autocuidado. Se não nos dermos o direito de pausar e descansar, como vamos ajudar a outra pessoa a fazer o mesmo?

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