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Eppur si muove

                      “As coisas de que temos certeza absoluta jamais são verdadeiras”

                                                                     Oscar Wilde em O Retrato de Dorian Gray

 

Diz-se que Galileo Galilei (1564-1642) pronunciou a frase que dá nome a este artigo – “Eppur si muove”, em português, “No entanto ela se move” – perante o Tribunal da Inquisição, depois de renegar a visão heliocêntrica do mundo. Na época do seu julgamento, a visão dominante entre os teólogos, filósofos e cientistas era de que a Terra seria estacionária e o centro do universo. Porém, Galileo ousou defender a teoria do heliocentrismo, o sol como centro, de Copérnico. Pela heresia e ousadia foi julgado, mas, para escapar da morte, renegou sua crença e os resultados de seus estudos. Ao final, inconformado, “soltou” a frase. Se realmente correu esse risco, não sabemos, pode de fato ser uma lenda. O importante é que conseguimos aprender muito com seu gesto.

Bertoldo Brecht, dramaturgo alemão, mais de três séculos depois, escreveu a peça de teatro “Galileu Galilei” focando o jogo de poder na sociedade que impede o livre pensar e a necessidade das pessoas, muitas vezes, de negar aquilo no qual acreditam, até para sua sobrevivência. Atualmente a peça está em cartaz no Brasil com a atriz Denise Fraga no papel de Galileu. Segundo ela, “todos nós somos Galileu. Quem é que não nega o óbvio para sobreviver?”. “A peça dá um sopro de vontade, mostra às pessoas que elas podem tomar as rédeas da própria vida”, ressalta.

É interessante lembrar que a visão heliocêntrica do universo, defendida por Galileu, mostrava que nós, terráqueos, não éramos o centro de tudo, como se acreditava. Essa nova verdade foi um choque para a arrogância dos poderosos, como também foi a teoria da evolução das espécies, de Darwin, ao mostrar que somos descendentes de macacos. E ainda a teoria do inconsciente de Freud, evidenciando que não temos controle total do nosso comportamento. Por isso, foram negadas e provocaram resistências.

Tais descobertas já não seriam o bastante para os seres humanos assumirem uma postura mais humilde, vista aqui como qualidade daqueles que não tentam se projetar sobre as outras pessoas e nem se acham superiores a elas? As pessoas não deveriam ficar mais abertas aos novos experimentos que contrariam o estabelecido? Não seria importante para refletirmos sobre o que nos é ofertado, ou mesmo imposto, nem sempre é o melhor ou não está de acordo com nossas crenças e valores éticos?

É sobre tudo isso que quero falar neste artigo, remetendo, especialmente, ao contexto organizacional. Sabemos que a sociedade, para manter o status quo, muitas vezes impede ou desqualifica o pensamento crítico. Todo questionamento dos sistemas religiosos e políticos estabelecidos é difícil pois, em geral, há punição para quem o contesta. Paradoxalmente, o ser humano necessita desses sistemas, já que eles atuam como defesas para a angústia da própria existência e sobrevivência. Essa foi uma das razões de Galileu renunciar às suas convicções.

O ambiente organizacional é um dos espaços onde podemos observar claramente fenômenos como esses. Quantas vezes os trabalhadores das organizações, sejam presidentes, diretores, gerentes, empregados não podem manifestar suas convicções, ou mesmo, têm de renegá-las? Quantas vezes têm de ser Galileus?

Precisamos ficar alertas sobre o que estamos fazendo nas organizações (e na sociedade também) com aquilo que acreditamos e com o nosso livre pensar. Até que ponto podemos (ou não) abrir mão de nossas convicções sem nos violentar, sem descuidar do pensamento crítico e da ética? Até que ponto usamos a desculpa da sobrevivência para atos incoerentes com valores que apregoamos? Precisamos abrir espaço para o questionamento tanto das nossas certezas quanto daquelas que querem nos impor e para o pensamento diferente. Ver além das aparências e acreditar também no que não se vê.

É necessário ter dúvidas sempre, como bem disse Millôr Fernandes: “Se você não tem dúvida é porque está muito mal informado”. Considerar, verdadeiramente, a prática da expressão “walk the talk”, (coerência entre o que se diz e o que se faz) tão falada nas organizações, mas tão pouco exercitada. Precisamos não esmorecer diante dos obstáculos, tomar as rédeas da própria vida, nas palavras da atriz de “Galileu Galilei” ou, em minhas palavras, ser autores das nossas peças, do nosso próprio trajeto e não apenas atores. Sugiro lembrar, ainda, que por volta do ano 500 a.C. o filósofo Confúcio já nos ensinava: “Aquele que se satisfaz com tudo que eu digo, não me é de nenhuma utilidade”.

*Thelma M. Teixeira é consultora organizacional e psicodramatista. Autora de artigos e do livro “Psicodrama Empresarial – o que, por que e como fazer”.

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