“Mudar a forma de se olhar começa por reconhecer o próprio repertório”
Em um mundo de comparações intermináveis, que afeta sobretudo as mulheres, Juliana Goes surgiu como um farol: pioneira na produção de conteúdo digital com foco em autoconhecimento e inteligência emocional, ela despertou novas formas de se olhar – menos para as falhas, mais para as competências. Empresária, influencer e palestrante, ela compartilha, com a Dnews, uma visão lúcida sobre os desafios contemporâneos e fala sobre a sua atuação como mentora de executivas.
A sobrecarga mental e o esgotamento emocional são queixas frequentes entre os profissionais. Segundo estudo da VR, publicado no Valor Econômico, em 2025 houve aumento de 136% no número de afastamentos ligados a esses problemas. Por mais que se fale no tema, os dados continuam alarmantes. O que falta para mudar esse cenário?
Informação já temos, mas leva tempo para ajustar uma cultura tão enraizada em valores contraditórios. Hoje o mundo fala de saúde mental, mas continua premiando quem ultrapassa limites. Fala de bem-estar, mas mantém agendas impossíveis, excesso de urgência e uma cultura que confunde disponibilidade constante com comprometimento.
Existe um descompasso claro entre discurso e prática. Enquanto performance continuar sendo medida apenas por volume, velocidade e presença ininterrupta, o esgotamento continuará sendo tratado como um efeito colateral aceitável.
Mudar esse cenário exige revisar o modelo de sucesso. Não se trata de produzir menos, mas de produzir melhor. Com mais clareza, foco e respeito aos limites humanos. Vivemos com tantos estímulos a todo tempo, isso também causa sobrecarga. Saúde mental não deveria ser vista como benefício. É base estrutural para qualquer organização que queira longevidade.

Juliana Goes é pioneira na produção de conteúdo digital com foco em autoconhecimento.
Quando se fala em sobrecarga mental e emocional, as pesquisas mostram que as mulheres são ainda mais afetadas, incluindo as que têm cargos de liderança. Pensando nas executivas, quais caminhos elas podem seguir para superar tais desafios?
Para as mulheres, o desafio costuma ser mais complexo porque muitas carregam múltiplos papéis ao mesmo tempo, quase sempre com uma régua interna mais rígida do que a externa. O primeiro caminho é parar de normalizar o excesso. Muitas executivas acreditam que o cansaço constante é sinal de comprometimento, quando na verdade é um alerta do corpo e da mente.
Outro ponto importante é sair da lógica do “dou conta de tudo sozinha”. Pedir apoio, estruturar rede, delegar com clareza e redefinir prioridades não diminui autoridade, fortalece.
E talvez o mais delicado: não se confundir com o cargo. Quando a identidade está totalmente colada à função, qualquer pressão vira ameaça. Separar quem você é do que você faz é fundamental para liderar com consistência sem adoecer.
Na sua atuação como mentora, você destaca que não é necessário escolher entre força e leveza. Por outro lado, não é simples alcançar esse equilíbrio. Qual seria o primeiro passo? Poderia compartilhar com as nossas leitoras?
O primeiro passo, ao meu ver, é compreender que força não é rigidez e leveza não é fragilidade.
Muitas mulheres foram ensinadas a endurecer para serem levadas a sério. Outras acreditam que precisam suavizar demais para não parecerem ameaçadoras, para serem aceitas e aprovadas. Esse jogo cansa e desconecta demais das nossas potencialidades e de quem realmente somos.
A harmonia começa quando a liderança nasce dessa somatória: clareza de valores, limites bem definidos e responsabilidade emocional. Quando isso está organizado, a força aparece como firmeza e a leveza como inteligência relacional.
Lideranças maduras não gritam nem se encolhem. Elas sustentam decisões difíceis sem perder humanidade. Isso vai além de performance, é treino interno e como gosto de dizer “musculatura emocional”.
É fundamental mudar a forma de se olhar. Esse “chamado” que você faz para as mulheres está ligado a problemas frequentes, como a síndrome da impostora, medo de ser julgada e um sentimento constante de insuficiência. Poderia falar mais sobre isso? Como elas podem mudar a forma como se veem?
Esses sentimentos não surgem do nada. Eles são construídos ao longo de anos de comparação, validação externa e uma ideia distorcida de perfeição. Eu mesma estive lá, quase uma vida toda presa ao papel da boa moça, da agradadora.
Mudar a forma de se olhar começa por reconhecer o próprio repertório. Experiência, entregas, decisões difíceis, trajetórias atravessadas. Muitas mulheres conhecem profundamente suas falhas, mas têm dificuldade de nomear suas competências. Costumo começar minhas palestras com a seguinte provocação: “quem é você além de suas credenciais?”.
Outro ponto importante é entender que insegurança não significa incapacidade. Muitas vezes, significa consciência. A diferença está no que se faz com isso: se paralisa ou se move apesar do medo.
Quando a mulher deixa de se perguntar “será que eu sou suficiente?” e passa a perguntar “o que eu posso construir com o que eu já sou?”, algo se reorganiza internamente e um mundo de possibilidades se abre.
Você é uma inspiração para milhares de mulheres que se tornaram protagonistas da própria vida. Certamente você se inspira em outras referências. Quais são as suas inspirações e por quê?
Minhas inspirações mudaram com o tempo, conforme eu também revi valores e meu próprio modelo de sucesso. Hoje me inspiram mulheres que não precisam provar valor o tempo todo. Mulheres que constroem com consistência, atravessam ciclos longos, sustentam escolhas difíceis e preservam integridade interna.
Oprah, Louise Hay, Mel Robbins, Brene Brown, minha mãe dona Nadja, são grandes inspirações para mim. No mais, busco como fonte de sabedoria, autoras, pensadoras, líderes espirituais, empresárias, mães e mulheres que entendem que sucesso sem saúde não é sucesso.
Também me inspiram pessoas que sabem viver bem os bastidores, não apenas os palcos, pessoas que mostram as nuances da vida real, com desafios e aprendizados. Que tem coragem de rever rotas, respeitar o próprio tempo e crescer sem se violentar no processo.


