O Brasil está envelhecendo. Até 2030, o país que é historicamente conhecido como uma "nação jovem" terá a quinta maior população idosa do mundo - o número de pessoas acima dos 60 anos ultrapassará o de crianças e adolescentes de até 14 anos. A projeção, realizada em pesquisa do IBGE, já se faz notar no mercado de trabalho e na sociedade - com ares positivos, é bom lembrar. Prova disso é o crescente protagonismo de profissionais acima dos 50 anos. Protagonismo este que ultrapassa o ambiente corporativo e chega, cada vez mais, aos círculos sociais, impulsionado pela internet, ao audiovisual e publicidade (mesmo que de forma mais lenta nessa área).
Entre 2023 e 2024, para fazer um recorte nas empresas, houve um aumento de 8,8% na contratação de profissionais dessa faixa etária, segundo o Ministério do Trabalho. Movimento que tem refletido diretamente na economia e em fatores estruturais e culturais da sociedade, como destaca a CEO da Dasein EMA Partners Brasil, Adriana Prates.
"As empresas estão sendo obrigadas a lidar com uma força de trabalho mais longeva, e isso naturalmente desloca o olhar também para a liderança. Ignorar profissionais 50+ passou a ser, além de injusto, pouco inteligente do ponto de vista de negócio, sobretudo em um ambiente corporativo cada vez mais complexo." De acordo com ela, as múltiplas crises simultâneas, tecnológicas, geopolíticas, climáticas e humanas exigem mais dos cargos estratégicos. "Lidar com adversidades vai além de velocidade ou domínio técnico. Pede repertório, leitura de contexto, capacidade de decisão sob pressão e visão de longo prazo. Competências que costumam vir da experiência acumulada."
Potencial não é sinônimo de juventude
Diante de um contexto econômico e social cada vez mais incerto, Prates chama atenção para o conceito de potencial - que anda em revisão no ambiente corporativo. "Por muito tempo, potencial foi confundido com juventude. Hoje, parte das organizações entende que potencial também é a capacidade de sustentar resultados ao longo do tempo, formar sucessores, atravessar ciclos e lidar com ambiguidade. São atributos em que profissionais mais experientes tendem a se destacar."
Ignorar profissionais 50+ passou a ser, além de injusto, pouco inteligente.
Outro ponto relevante é o impacto da longevidade na carreira. Muitas lideranças estão compreendendo que, se as pessoas vão trabalhar até mais tarde, faz sentido aproveitar esse capital intelectual em posições de maior valor agregado, e não restringi-lo a funções de bastidor ou empurrá-lo precocemente para fora do mercado.
Diferencial mais disputado
Com tal mudança cultural em curso e a diversidade etária galgando espaço como vantagem competitiva, chama atenção a importância do repertório comportamental e, em especial, da maturidade decisória - um dos diferenciais dos executivos mais disputados em 2026. "Quando falo em maturidade decisória, me refiro à capacidade de decidir bem em contextos complexos e de alta pressão, considerando não apenas o resultado imediato, mas as consequências no médio e longo prazo. É a diferença entre decidir rápido e decidir com profundidade", esclarece Adriana Prates.
Essa maturidade envolve alguns elementos centrais: a leitura de contexto, que permite entender o que está em jogo para além do problema aparente. A capacidade de lidar com paradoxos, sustentar decisões impopulares quando necessário e, ao mesmo tempo, revisar rotas sem apego ao próprio ego. E também o discernimento para saber quando agir e quando esperar, algo cada vez mais raro em ambientes obcecados por velocidade. "A maturidade decisória não está automaticamente ligada à idade, mas é inegável que a experiência favorece esse tipo de competência. Profissionais 50+ tendem a ter atravessado mais ciclos de negócio, crises, mudanças e dilemas éticos, o que amplia o repertório emocional e cognitivo para a tomada de decisão."
A experiência dos seniores traz densidade, visão sistêmica e uma sensibilidade que só o tempo constrói.
O ponto central é que maturidade decisória não se constrói apenas com conhecimento técnico ou exposição a novidades, mas com vivência, reflexão e responsabilidade sobre decisões tomadas ao longo do tempo. Em um cenário como o que se desenha para 2026, em que erros custam caro e decisões têm efeitos sistêmicos, esse tipo de maturidade tende a se tornar um diferencial cada vez mais valorizado, independentemente da idade, mas frequentemente mais presente em profissionais com trajetórias mais longas.
Barreiras culturais
Por mais que a consciência sobre o potencial dos profissionais 50+ tenha crescido, o caminho ainda é longo para dissolver as barreiras do preconceito etário. Ainda prevalece o senso comum de que profissionais maduros têm mais resistência a aprender, não só sobre novidades da tecnologia, mas sobre as novas formas de se trabalhar, e têm menor produtividade. "Estigmas que pesam nos processos de contratação e continuam sendo um atalho mental comum, especialmente em empresas muito orientadas por velocidade e novidade", observa Prates.
Contudo, segundo ela, é importante dizer que essas não são barreiras reais, e sim barreiras culturais. "Na prática, o que vemos é que a capacidade de aprender não está diretamente ligada à idade, e sim à curiosidade, ao repertório e ao contexto. Muitos profissionais 50+ aprenderam a se reinventar várias vezes ao longo da carreira, atravessaram mudanças tecnológicas profundas e desenvolveram uma habilidade essencial hoje: aprender continuamente."
Quanto à produtividade, o equívoco costuma estar na forma como ela é medida. Em cargos estratégicos, produtividade não é quantidade de horas ou velocidade de entrega, mas qualidade de decisão, redução de retrabalho, leitura de risco e impacto no longo prazo. Sob esse critério, profissionais mais experientes frequentemente entregam mais, com menos desperdício. "Ainda assim, há outras barreiras relevantes. Uma delas é o custo percebido, já que profissionais seniores costumam ter remunerações mais altas. Outra é o receio de choque cultural, especialmente em empresas jovens ou em times liderados por gestores mais novos, que ainda não desenvolveram maturidade para liderar gerações diferentes."
Boa parte das barreiras nas relações intergeracionais está ligada à escuta.
O principal obstáculo não está na capacidade dos profissionais 50+, salienta Adriana Prates, "mas na dificuldade das organizações em revisar seus modelos mentais sobre aprendizado, produtividade e liderança. Enquanto isso não mudar, o etarismo segue operando, mesmo em ambientes que se dizem modernos e inclusivos."
Se há dúvida: teste
Para empresas que ainda questionam a contratação de profissionais 50+, Adriana Prates aconselha que as perguntas tenham outro foco: menos sobre a idade dos profissionais e mais sobre o custo das decisões que estão deixando de tomar bem. "O preconceito etário é reflexo de modelos mentais antigos, que associam inovação à juventude e experiência a rigidez. Em ambientes complexos, essa lógica cobra um preço alto, seja em decisões apressadas, retrabalho, erros evitáveis ou dificuldade de sustentar resultados no tempo."
Também é fundamental olhar para a diversidade etária com o mesmo grau de seriedade com que se olha para outros tipos de diversidade. Não se trata de filantropia ou de agenda social, mas de inteligência organizacional. Times homogêneos tendem a pensar igual, errar mais e aprender menos. "Meu convite é simples: testem. Coloquem profissionais 50+ em processos relevantes, observem a qualidade das decisões, o impacto no time e os resultados no médio prazo. Em muitos casos, a resistência cai não por convencimento teórico, mas pela evidência prática".
Avanços e desafios
Fazendo uma análise do mercado a partir dos processos de executive search conduzidos pela Dasein nos últimos 10 anos, nota-se uma evolução na abertura a candidatos mais maduros por parte das empresas/clientes. "No entanto, o etarismo segue presente, muitas vezes de forma silenciosa, influenciando decisões mesmo quando não aparece explicitamente como critério. Em muitos processos, a abertura aos profissionais 50+ só acontece quando a empresa enfrenta um cenário de maior complexidade, necessidade de reorganização ou quando já testou outras alternativas e percebeu que precisava de um nível mais alto de maturidade e repertório", conta Adriana Prates.
Na prática, ainda se observa uma preferência por candidatos mais jovens em contextos de crescimento acelerado, transformação digital ou renovação cultural, mesmo quando esses desafios exigiriam, paradoxalmente, mais experiência e leitura de contexto. "Há também um limite etário implícito que persiste. Profissionais na faixa dos 50 e poucos anos começam a ser considerados 'no topo' da curva, como se estivessem mais próximos do fim da carreira do que de uma nova fase de contribuição, o que reduz o número de oportunidades, especialmente em processos mais competitivos. "
Existe uma serenidade em quem já viveu diferentes ciclos profissionais que ensina muito.
Diversidade no DNA
Já na Dasein, o encontro entre gerações não é exceção, é parte da identidade da empresa, como relata seu diretor, Daniel Rezende. Convivem no mesmo espaço profissionais muito jovens, recém-formados e consultores com mais de 70 anos, o que cria um ambiente vivo, provocador e em constante aprendizado. "A experiência dos seniores traz densidade, visão sistêmica e uma sensibilidade que só o tempo constrói. As gerações mais novas desafiam, atualizam repertórios e ampliam o olhar para novas linguagens, tendências e formas de trabalhar.
Para os nossos clientes, esse encontro se traduz em soluções mais completas. Conseguimos unir inovação com consistência, velocidade com reflexão e visão de futuro com respeito à história e à cultura das organizações", ressalta o dirigente. Segundo Rezende, os profissionais mais jovens contribuem fortemente com agilidade, experimentação, novas formas de colaboração e uma relação mais natural com o erro como parte do aprendizado. Já os profissionais 50+ trazem repertório, leitura de contexto, visão de longo prazo e competências essenciais, como comunicação, tomada de decisão e gestão de conflitos. "Há também um intercâmbio muito rico em temas como ética, propósito, sustentabilidade e liderança. Quando essas visões se encontram, as empresas ganham mais equilíbrio, profundidade e capacidade de fazer escolhas melhores."
O valor das trocas intergeracionais
Para Luzete Campolina, gerente de Gente e Gestão do Grupo Itatiaia e consultora parceira da Dasein, encontros e desencontros de gerações sempre foram temas importantes para as organizações, permeados pelo contexto de cada época. "Talvez por isso a tecnologia seja algo que vem em primeiro lugar no cenário atual. Acredito, no entanto, que ela é apenas a ponta do iceberg, já que as trocas mais ricas acontecem em dimensões menos técnicas e mais humanas e estratégicas. Quando essas perspectivas se encontram, o que emerge não é uma disputa geracional, mas um aprendizado mútuo: jovens aprendem a dar profundidade às suas ideias e seniores aprendem a dar velocidade e frescor às suas decisões. "
Ela defende que a verdadeira riqueza não está em categorizar as pessoas, mas em integrar as diferentes habilidades e visões para resolver problemas de forma mais criativa e eficaz. "Profissionais 50+ podem, por exemplo, ensinar os mais jovens a desenvolver resiliência e a lidar com as frustrações do mundo corporativo, a gerenciar conflitos e manter a calma sob pressão. Já as gerações mais novas, que trazem para o ambiente de trabalho uma consciência sobre a importância da inclusão, da singularidade e do respeito às diferenças, podem enriquecer o debate e as práticas da empresa."
Por mais ricas que sejam as interações entre profissionais de diferentes gerações, criar essas conexões nem sempre é simples, o que exige a atenção especial da liderança. Segundo Campolina, as organizações precisam estimular a interação e mudança de modelos mentais, como a ideia de que jovens são "imaturos" ou que profissionais 50+ são "resistentes à mudança". Para isso é necessário que as relações sejam horizontais, estruturadas e legitimadas pelas lideranças. "Todos, independentemente da idade, devem se sentir seguros para expressar ideias, fazer perguntas e até mesmo admitir não saber algo. Isso começa com a liderança, que deve combater ativamente o etarismo e promover o respeito."
Para Jéssica Lima, gerente de projetos da Dasein e representante dos millennials, boa parte das barreiras nas relações intergeracionais está ligada à escuta, ou melhor, a falta dela. "Quando existe espaço para conversar sem a necessidade de convencer o outro, a troca flui melhor. Nesse cenário, o papel da liderança é fundamental, pois ajuda a criar um ambiente seguro, onde opiniões são valorizadas e a troca de aprendizados é vista como inteligência e oportunidade de crescimento. Assim, experiências se somam a novas perspectivas, fortalecendo decisões, inovando processos e construindo relações mais colaborativas. Quando ouvir passa a ser tão importante quanto falar, o ambiente de trabalho se torna mais humano, produtivo e preparado para os desafios do presente e do futuro."
De acordo com ela, o aprendizado mais valioso nas trocas com profissionais 50+ foi entender que nem tudo precisa ser imediato e nem tudo precisa tirar o nosso sono. "Aprendi a respeitar o tempo das decisões e a perceber que carreira se constrói com constância, não só com intensidade. Existe uma serenidade em quem já viveu diferentes ciclos profissionais que ensina muito sobre postura, responsabilidade e reputação. Isso muda a forma como me posiciono: menos pressa para provar e mais foco em sustentar entregas e relações ao longo do tempo."
Jéssica Lima acredita que, em geral, os jovens não esperam conhecimentos técnicos dos mais seniores, porque isso hoje é facilmente acessível. "O que buscamos é referência. Queremos entender como alguém construiu uma trajetória sólida, como lidou com mudanças, frustrações e reinvenções. No meu caso, o que mais desejo aprender com a geração 50+ é como manter relevância sem perder identidade, como equilibrar ambição com bem-estar e como continuar curioso e aberto ao novo, mesmo depois de muitos anos de experiência."
Ver que as empresas estão começando a valorizar a longevidade é um sinal de esperança.
Luzete Campolina lembra que um modelo que tem se mostrado extremamente eficaz é a mentoria reversa. A lógica é simples e poderosa: inverte-se o fluxo tradicional de mentoria. Profissionais mais jovens atuam como mentores de colaboradores mais experientes e, geralmente, de alta liderança. "Embora tenha começado com foco em tecnologia e mídias sociais, hoje a mentoria reversa abrange temas como novas tendências de consumo, sustentabilidade, diversidade e inclusão, e até mesmo o comportamento e as expectativas da Geração Z".
Os 50+ ganham uma visão atualizada do mundo, compreendem melhor as novas gerações de consumidores e colaboradores, e se tornam mais abertos à inovação e os jovens desenvolvem habilidades de liderança, ganham visibilidade na organização, compreendem melhor a visão estratégica do negócio e se sentem mais engajados e valorizados. E a empresa acelera a transformação digital e cultural, quebra hierarquias, promove a inclusão e cria uma cultura de aprendizado contínuo. Grandes empresas como a General Electric, que foi pioneira no conceito, e a Google utilizam esse modelo para garantir que suas lideranças permaneçam conectadas com a vanguarda do mercado e da sociedade.
Exemplo para as futuras gerações
O crescente protagonismo de profissionais 50+ em uma variedade de cargos, para além da alta liderança, carrega um significado simbólico profundo e extremamente positivo para os jovens que estão iniciando suas carreiras. "É a prova viva de que a empregabilidade não tem data de validade", ressalta Luzete Campolina.
"Para uma geração que, segundo projeções, poderá trabalhar até os 70 anos ou mais, ver que as empresas estão começando a valorizar a longevidade é um sinal de esperança. Simbolicamente, isso representa um futuro do trabalho onde a colaboração intergeracional é a norma, não a exceção, e onde a carreira pode ser longa, flexível e adaptada às diferentes fases da vida, combatendo o esgotamento e promovendo um equilíbrio mais saudável", sublinha a gerente.
Três pontos fortes que merecem investimento
Repertório decisório. A capacidade de analisar cenários complexos, identificar riscos, fazer conexões e decidir com profundidade é um diferencial claro. Vale investir em traduzir essa experiência em narrativas objetivas, exemplos concretos e resultados mensuráveis, especialmente em processos seletivos.
Inteligência emocional aplicada à liderança. Profissionais maduros tendem a lidar melhor com conflitos, pressão e frustrações. Esse é um ativo importante, mas que precisa ser exercido de forma atual, com escuta ativa, abertura ao diálogo e capacidade real de engajar gerações diferentes.
Visão sistêmica do negócio. A compreensão de como áreas se conectam, de como decisões reverberam ao longo do tempo e de como equilibrar curto e longo prazo é uma competência que se fortalece com a trajetória. Investir em se posicionar como alguém que enxerga o todo, e não apenas a própria especialidade, é fundamental.
Três pontos fracos que devem ser melhorados
Comunicação de valor. Muitos profissionais experientes ainda contam sua história a partir do passado, do cargo ou do tempo de casa, quando o mercado quer saber o que eles resolvem hoje. É essencial atualizar o discurso, focando em impacto, aprendizado recente e relevância atual.
Relação com o novo. Não se trata apenas de tecnologia, mas de novas formas de trabalhar, liderar e se expor. Resistência a modelos híbridos, a times mais horizontais ou a feedbacks mais diretos pode minar a percepção de adaptabilidade.
O risco da cristalização. Experiência pode virar rigidez quando o profissional passa a se apoiar excessivamente no "sempre foi assim". Manter curiosidade, humildade intelectual e disposição para aprender é decisivo para que a maturidade siga sendo vantagem, e não obstáculo.