Pela primeira vez, em 20 anos, um grande estudo comprovou o que se especula amplamente no mundo do trabalho: as pessoas têm valorizado mais o equilíbrio entre vida pessoal e profissional do que salários elevados. A pesquisa, que é parte do Workmonitor e acaba de ser publicada pela revista Fortune, mostra que 83% dos entrevistados consideram o equilíbrio a principal condição para permanecer ou aceitar um emprego.
Para além do ineditismo desse resultado e seu simbolismo, ele é ainda mais relevante porque vai ao encontro de uma crescente demanda entre executivos brasileiros - o salário emocional. Conhecido por oferecer benefícios intangíveis na promoção da saúde mental e física, ele agora tem englobado a saúde social: tema que vem ganhando terreno ao dar ênfase às relações e ao evitar riscos ocupacionais ligados à solidão - um dos sinais mais negativos dos nossos tempos.
Saúde social
As lideranças têm papel decisivo para fortalecer a saúde social das equipes, porque são elas que criam o clima emocional onde as relações acontecem, já que a sensação de pertencimento não surge espontaneamente. Ela é fruto de interações humanas consistentes, de espaços seguros para troca e de vínculos construídos ao longo do tempo. Quando a liderança entende esse papel, consegue transformar o ambiente de trabalho em uma comunidade e não apenas em um local de execução de tarefas.
Um primeiro ponto é promover segurança psicológica. Isso significa criar um ambiente onde as pessoas se sintam à vontade para falar, discordar, pedir ajuda e compartilhar dificuldades sem medo de julgamento. Quando existe essa base de confiança, as relações fluem, e a solidão ocupacional diminui, porque ninguém se sente isolado em suas próprias batalhas.
Outro fator decisivo é o cuidado individualizado. Lideranças que conhecem suas equipes além do cargo e entendem necessidades, estilos e ritmos conseguem apoiar cada pessoa de forma mais humana. Esse tipo de atenção reduz a sensação de anonimato, que é uma das raízes da solidão no trabalho.
Cuidados dentro e fora do escritório
Para líderes que atuam no modelo presencial, o maior cuidado é não deixar que a rotina engula o encontro humano. Mesmo com a proximidade física, muitas equipes se tornam silenciosas, mecânicas, cada um focado em sua mesa e tarefas. O líder precisa resgatar a convivência. Isso significa olhar nos olhos, conversar sem pressa, circular pelos espaços, usar o ambiente para criar conexão espontânea. Também é importante perceber quem está mais isolado e aproximar essas pessoas com naturalidade, incluindo-as em conversas, decisões e projetos.
Já para líderes que gerenciam equipes remotas, o desafio é outro: ausência de convivência natural. Nada acontece por acaso. Por isso, o conselho é criar rituais constantes e leves que substituam aquilo que, no presencial, surge espontaneamente. Conversas rápidas para saber como a pessoa está, reuniões que reservem alguns minutos de partilha, mensagens de reconhecimento enviadas no momento da entrega, aproximação individual e incentivo para que as pessoas conversem entre si, não apenas com o gestor. Também é fundamental que a comunicação seja clara, gentil e frequente, porque no remoto o silêncio muitas vezes é interpretado como distância ou desinteresse.
Voltando ao salário emocional, o vejo também como um incentivo a criar conexões entre os membros do time, indo além de confraternizações e eventos formais, tanto para equipes presenciais, quanto para as remotas. A partir dessa medida, é possível oferecer experiências em grupo, ligadas à cultura, arte, gastronomia, ações para promover o autocuidado, o descanso (como dias de folga em datas especiais). Experiências que se relacionam com um fator essencial: as necessidades humanas, o que gera um impacto emocional muito maior do que o custo financeiro para a empresa.
Nova geração
Para os talentos da nova geração, o investimento em salário emocional não é apenas desejável, é praticamente indispensável. Esses jovens cresceram em um contexto onde autonomia, saúde mental, propósito e flexibilidade têm peso igual ou até maior do que a remuneração financeira. Eles não rejeitam bons salários, mas entendem que dinheiro algum compensa um ambiente tóxico, relações desgastantes ou falta de equilíbrio entre vida pessoal e profissional.
Para essa geração, o trabalho precisa caber na vida, e não o contrário. Por isso, empresas que oferecem jornadas flexíveis, experiências que ampliam repertório, espaços de escuta, possibilidades de desenvolvimento e uma cultura livre de excessos de pressão têm vantagem competitiva na atração e retenção desses talentos.
Além disso, os jovens são especialmente sensíveis à coerência. Não basta a empresa "dizer" que valoriza pessoas, é preciso demonstrar isso no cotidiano. Quando encontram esse tipo de ambiente, tendem a se engajar profundamente, inovar e permanecer. Quando não encontram, mudam de empresa sem hesitar.
Em um mercado onde esses profissionais têm mais mobilidade e menos tolerância a ambientes desgastantes, o salário emocional deixa de ser um diferencial e se torna uma necessidade. Ele responde exatamente ao que essa geração mais busca: equilíbrio, pertencimento, significado e a possibilidade real de construir uma carreira sem abrir mão da própria saúde emocional.
Remuneração justa é insubstituível
Apesar de seus benefícios, o salário emocional não deve mascarar problemas estruturais como salários incompatíveis ou jornadas exaustivas. Ele não substitui remuneração justa. Todavia, funciona plenamente quando integra uma estratégia mais ampla que repensa os modelos de trabalho contemporâneo, marcados pela sobrecarga de estímulos, pressão excessiva por produtividade e redução das fronteiras entre vida pessoal e profissional.
Não restam dúvidas que investir em salário emocional em 2026 é uma medida acertada: essa é a maneira de criar significado, gerar pertencimento, além de prevenir tanto o burnout quanto do burnon, que é o esgotamento silencioso, acumulado ao longo do tempo e muitas vezes ignorado.
Pessoas tendem a permanecer e se engajar quando encontram propósito, autonomia, oportunidade de crescimento e reconhecimento. O salário emocional se conecta com esses pilares ao promover sensação de cuidado, liberdade para organizar a rotina, variedade no cotidiano e vínculos mais humanos no ambiente corporativo.






