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Inspire-se com Tania Cosentino

“Uma empresa que se considera líder no seu mercado não pode desprezar seus impactos ambientais e sociais”

Planejar, estabelecer objetivos reais, identificar oportunidades e se preparar para os desafios. Assim tem sido construída a carreira de sucesso de Tania Cosentino, primeira mulher e cidadã brasileira a se tornar presidente da Schneider Electric para a América do Sul. Em sua gestão, a executiva vem desempenhando papel importante no campo da sustentabilidade, especialmente em temas relacionados à eficiência energética e acesso à energia – o que lhe rendeu um reconhecimento da ONU no ano passado -, e também no âmbito da equidade de gêneros – agraciada pelo Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) com o 1º Prêmio de Liderança Feminina.

Em meio à agenda lotada, Tania nos concedeu uma inspiradora entrevista na qual abrange um pouco mais sobre sua dedicação às causas sociais e o ingresso e a ascensão das mulheres no ambiente profissional. Ainda revela as competências e habilidades que considera essenciais para quem deseja alcançar o topo na carreira e compartilha referências culturais marcantes em sua vida pessoal e profissional. Acompanhe!

Você foi uma das poucas mulheres a cursar a graduação em Engenharia Elétrica. Ao ingressar no mercado de trabalho, continuou num ambiente predominantemente masculino. Quais foram os principais obstáculos enfrentados para se destacar nesse universo corporativo? O fato de ser mulher dificultou o caminho?

Eu nunca considerei o fato de ser mulher uma barreira. Quando estava cursando Engenharia, o universo do mundo elétrico não era novo para mim, pois já era formada em Eletrotécnica pela Escola Técnica Federal de São Paulo (atual IFSP) e já trabalhava em uma grande multinacional do setor. Sempre me interessei pela área de Exatas e, ainda criança, participava de olimpíadas de matemática. Então, essa trajetória acabou sendo muito natural.

Apesar da baixa representatividade das mulheres nesses cursos (20% no curso técnico e 10% na Engenharia), fui capaz de construir meu espaço, sendo sempre respeitada e apoiada pelos meus colegas. Foco, disciplina, autoconfiança e bons resultados falaram mais alto do que o gênero. Se houve barreiras e preconceitos, não dei importância e segui em busca do meu objetivo.

Você defende muito a presença de mais mulheres na área de Exatas e também investe em projetos para aumentar a diversidade, tanto que lidera na Schneider Electric na América do Sul o programa HeForShe. Na prática, quais ações a empresa tem desempenhado para aumentar a igualdade de gênero entre seus funcionários e, principalmente, em posições de liderança?

A Schneider Electric sempre apoiou o desenvolvimento da carreira de mulheres, e posso dizer que eu e um grupo de executivas somos frutos desse trabalho. Porém, percebemos, há alguns anos, que o movimento não estava gerando os resultados desejados. Gostaríamos de avançar muito mais rápido e, para isso, deveríamos criar um programa estruturado, com foco em diversidade de gênero.

Foi assim que, de forma pioneira, a Schneider se incorporou ao Impact e firmou seu compromisso com o HeForShe e com os Women’s Empowerment Principles (WEPs), ambos os programas da ONU Mulheres. Diversidade de gênero não é “papo de mulher”. A intenção do HeForShe é trazer os homens para a conversa, pois são eles, ainda, aproximadamente 95% dos CEOs. Já os WEPs apresentam, de forma simples, sete passos para uma empresa criar seu programa de diversidade de gênero, e tudo começa colocando o tema na agenda do CEO e das altas lideranças.

Após assumirmos formalmente o compromisso com a UNU Mulheres em 2014/2015 em toda a América do Sul, fizemos uma análise da nossa demografia, identificamos nossos “gaps” e, na sequência, estabelecemos nossas metas, que são:

– aumentar o recrutamento de mulheres para 42% sobre o total de recrutamentos (meta medida trimestralmente desde 2015);

– ter 30% de mulheres na alta liderança da empresa até 2020;

– eliminar o “pay gap” até 2020.

Tenho orgulho de dizer que, inspirada e apoiada pelo CEO global, Jean-Pascal Tricoire, lidero essa grande transformação e já posso observar bons resultados desse programa.

Para nós, da Schneider Electric, homens e mulheres são iguais e oferecemos a todos os colaboradores as mesmas oportunidades de desenvolvimento.

Compromissos

Desde 2015, a Schneider Electric é um dos dez defensores corporativos do Impact 10x10x10, da ONU Mulheres, um grupo de empresas, universidades e governos que atua em políticas de gênero. De lá para cá, cerca de 40 mil de seus colaboradores já assinaram a petição on-line e juntaram-se ao movimento HeForShe, programa da ONU Mulheres e da UN Global Compact Initiative que incentiva homens e meninos a agir contra as desigualdades negativas enfrentadas por mulheres e meninas.

Em 2016, 40 presidentes de países da empresa assinaram os Princípios de Empoderamento das Mulheres (WEPs) estabelecidos pela ONU Mulheres e pelo Pacto Global. Os signatários WEPs se comprometem publicamente a fazer todos os esforços possíveis para oferecer as mesmas oportunidades a homens e mulheres, permitindo que desenvolvam seu potencial. Recentemente, a subsidiária brasileira recebeu o Prêmio Prata da iniciativa WEPs local, em reconhecimento das suas melhores práticas e dos resultados obtidos em relação à equidade de gêneros e ao empoderamento das mulheres.

Programas

Em 2012, a Schneider Electric deu início à sua estratégia global pela diversidade e inclusão, com e-learning para gender balance. Desde então, quase 2 mil pessoas já fizeram esse webcurso. Em 2015, outro importante passo foi dado: treinamento de viés inconsciente. Por atividades interativas e simulações, a empresa ajuda as pessoas a identificar preconceitos ocultos e, ainda, a detectar situações em que o viés influencia a tomada de decisão e prejudica a organização, os colaboradores, os negócios e a sociedade em geral. Até o momento, cerca de 100 altos executivos atuantes na América do Sul passaram por essa experiência. Entre 2018 e 2019, todos os colaboradores serão treinados presencialmente e também terão a versão digital disponível.

No mercado de trabalho, os recrutadores e gestores devem ficar alertas quanto a padrões de comportamento que dificultam ou impedem o ingresso e a ascensão das mulheres no ambiente profissional.

Além da educação dos nossos executivos, promovemos um ambiente de trabalho ético e saudável, sendo que nosso Código de Conduta prevê punições contra qualquer espécie de discriminação ou assédio. Temos um canal de denúncias à disposição dos colaboradores, operado por uma empresa de mercado e que garante a confidencialidade de qualquer fato reportado. Esses fatores nos levaram a ser reconhecidos como a Melhor Empresa do Brasil no que se refere a práticas antidiscriminatórias pela Exame e pelo organização WILL (Women in Leadership in Latin America).

Como ações inclusivas, temos a política de “Family Leave”, que engloba licença maternidade, licença paternidade, licença para apoiar parentes sêniores enfermos, além de programa de acompanhamento de gestantes. Também oferecemos flexibilização da jornada, home office e um canal telefônico para apoio financeiro, jurídico e psicológico para todos os funcionários. A segurança psicológica dos nossos colaboradores contribui para um maior engajamento e produtividade.

Na área de desenvolvimento, lançamos o programa Mentoria: colaboradores homens e mulheres trocam experiências, conhecimentos e pontos de vista, sempre com o intuito de apoiar o crescimento profissional de mulheres talentosas. Outro sucesso recente é o programa de mentoria reversa, no qual jovens profissionais nascidos no mundo digital atuam como mentores de profissionais sêniores. Os processos de mentoria oferecem oportunidade de desenvolvimento tanto dos mentores como dos mentees. Temos um elevado índice de satisfação com esses programas.

Nosso programa de inclusão hoje está bastante maduro e com significativos avanços em toda a região da América do Sul. Atualmente, vamos além do gênero, com programas de contratação e de acesso a cargos de liderança para pessoas com necessidades especiais, grupos LGBTIs, diferentes etnias, refugiados. Criamos aqui na empresa um ambiente genuinamente inclusivo.

Nossas ações vão além das fronteiras da empresa. Levamos nossos programas aos nossos parceiros, fornecedores e comunidades. Temos o dever de elevar o nível de toda nossa cadeia de valor, inserindo padrões de ética, gestão e RH.

Desenvolvemos também parcerias com ONGs em nossos programas de acesso à energia, pelos quais focamos no desenvolvimento de qualificação profissional de mulheres dentro do setor elétrico.

Todos os programas e as ações aqui mencionados englobam os países da América do Sul onde a Schneider Electric atua. Vale destacar ainda que, em muitos casos, a região foi pioneira na implantação de programas globais, a exemplo do treinamento de viés inconsciente e da assinatura dos compromissos LGBTI.

Para mulheres que desejam chegar ao topo assim como você, quais competências e habilidades destacaria como fundamentais na carreira?

Vivemos em um mundo em constante transformação, um mundo extremamente volátil, cheio de incertezas, complexo e ambíguo (VUCA). Ou seja, a receita do sucesso não é a mesma do passado. Na minha opinião, as competências necessárias para chegar ao topo são: capacidade de adaptação, capacidade de lidar com a ambiguidade, capacidade de promover a cultura de inovação, disposição para correr riscos, habilidade para formação e desenvolvimento de equipes de alta performance, foco no cliente, visão estratégica e foco em resultados.

Você tem feito também um trabalho muito importante em defesa da sustentabilidade e tem conseguido sensibilizar várias empresas para o tema. Conte-nos um pouco mais sobre esse projeto.

Eu acredito que uma empresa que se considera líder no seu mercado não pode desprezar seus impactos ambientais e sociais. Essa crença sempre esteve presente na agenda da Schneider Electric. Prova disso é que, desde 2002, trabalhamos mundialmente com o Pacto Global da Organização das Nações Unidas (ONU) e incorporamos suas iniciativas em nossos negócios, envolvendo, inclusive, nossa cadeia de suprimentos. Não foi diferente quando a entidade lançou, em 2015, os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e suas 169 metas a serem alcançadas até 2030. Fizemos, assim, uma avaliação profunda de nossas ações e nossos projetos, relacionando-os com os tais objetivos e concluímos que nosso negócio impacta diretamente os 17 ODS.

Para mim, esse tema é apaixonante, e temos inúmeros projetos dos quais me orgulho muito. Mencionarei alguns:

Trabalhamos junto a ONGs como World Wide Fund for Nature (WWF) e Instituto Socioambiental (ISA), experientes em ações e relacionamento com comunidades isoladas que possuem baixo ou nenhum acesso à energia renovável. Nesses casos, geramos eletricidade em espaços de convivência (escolas e unidades de saúde) e aqueles destinados a atividades produtivas – pimenta, mel, castanha –, e ainda promovemos treinamentos para que os próprios moradores possam cuidar da manutenção elétrica. Agora, com energia a um custo justo, essas pessoas podem, finalmente, melhorar seus processos produtivos (refrigeração, por exemplo), com impacto direto na geração de renda.

As mulheres ganham atenção especial. Junto ao ISA e ao Instituto Consulado da Mulher, valorizamos o empreendedorismo feminino, oferecendo treinamento e apoio às trabalhadoras envolvidas com a cadeia de produção de pimenta. E mais: em parceria com o ISA, levamos soluções e treinamentos para cerca de 30 aldeias do Parque Indígena do Xingu.

Ainda dentro do programa de acesso à energia, pudemos, em conjunto com a Fundação Amazônia Sustentável (FAS), eletrificar com fontes renováveis comunidades remotas da região, como Tumbira e Rio Negro, levando desenvolvimento econômico, educação e saúde. Além disso, lado a lado com a FAS e a Universidade Federal do Amazonas (Ufam), apoiamos a iniciativa Star Energy, incentivando a pesquisa científica sobre sistemas de energia sustentáveis, renováveis, replicáveis e autônomos para a Amazônia.

Também atuamos em parceria com organizações educacionais em diferentes localidades do Brasil e até de outros países, como Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), Centro Universitário de Lins (Unilins), Instituto Dom Bosco e SENA (América do Sul). Doamos soluções de iluminação e eletrificação solar, além de material didático, para que tais entidades possam estruturar e ofertar treinamentos de elétrica básica e energia fotovoltaica. O objetivo é beneficiar pessoas de baixa renda, ajudando-as a entrar no mercado de trabalho ou a avançar no empreendedorismo e, portanto, a sair da condição de vulnerabilidade social a que estão submetidas. Na América do Sul, em cinco anos, foram treinadas 30 mil pessoas, incluindo mulheres, elevando a renda média da comunidade piloto em 52%.

Há outros tantos parceiros fundamentais quando o objetivo é trabalhar em prol do desenvolvimento social e econômico: a ONU e seu Pacto Global, a Confederação Nacional da Indústria (CNI), a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), a Câmara Americana de Comércio (Amcham), a Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), o Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) – cujo principal intuito é influenciar políticas públicas nas esferas municipal, estadual e federal –, a Plataforma Liderança Sustentável (organizada pelo consultor Ricardo Voltolini), etc.

As associações criam guias de boas práticas, fomentando e orientando ações por parte da iniciativa privada. Por meio da ONU Mulheres, por exemplo, nós firmamos compromisso com o HeForShe e com os WEPs.

Por fim, dedico parte do meu tempo a fazer o “advocacy” de sustentabilidade e diversidade, pois acredito que, promovendo nossas ações, compartilhando conhecimento, podemos impactar positivamente toda a sociedade.

No tempo livre, a quais atividades você gosta de se dedicar? Poderia compartilhar conosco referências culturais (livros, filmes, música) que influenciaram ou foram marcantes para sua vida e construção de sua carreira?

Sempre procuro encontrar tempo para estar com família e amigos. Adoro viajar, ler clássicos e dançar. Para mim, o livro referência é sempre o último que li, e acabei de ler o “Mindset – The New Psychology of Success”, de Carol Dweck. A obra trata de como o desenvolvimento de um “mindset de crescimento” impacta a formação de crianças, atletas e profissionais. Eu recomendo a leitura – excelente conteúdo e superacessível.

Você é referência para muitos profissionais ao redor do mundo, mas quais as personalidades que te inspiram atualmente e por quê?

Não busco inspiração em grandes nomes e, ultimamente, tenho me desapontado muito com grandes líderes e gurus. Procuro, então, me inspirar em pessoas simples, que superam suas dificuldades todos os dias. Me inspiro nos meus pais e nos valores que passaram a mim e meus irmãos.

Todos os dias me inspiro com um grupo de amigas que trabalham pela redução da desigualdade de gêneros. São mulheres comuns e extraordinárias ao mesmo tempo.

Poderia dividir com nossos leitores um ensinamento que guarda na memória?

Seja sempre você mesma. Autenticidade, coerência e integridade farão toda a diferença em todas as fases da sua vida.

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