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Desacelere | Amor… e outras diferenças

Amor… e outras diferenças

Por Jacques Fux

Escritor Jacques Fux – Foto: Maria Eduarda de Carvalho

Eu ainda era jovem. E havia me apaixonado pela primeira vez por uma menina. Encontro das almas? Acabamos nos tornando próximos e a confusão começou. Enquanto ela queria um ombro amigo, um confidente e um acompanhante eunuco, eu sonhava com nossos corpos entrelaçados e sem roupa. E, na certeza de que era ela, o meu grande amor, mais e mais ridículo me tornava. Eram cartas cafonas, flores roubadas e declarações apaixonadas. Até que no auge da breguice, depois de uma briga qualquer, cantei ao telefone: “Desculpe o auê, eu não queria magoar você, foi ciúme sim”. Claro que essa história não teve um final feliz. Logo depois da minha cantiga desafinada, ela acabou se envolvendo (com razão) com um amigo.

Os meus desencantos e fracassos continuariam por anos. A verdade é que é imensa a distância entre a idealização do amor e sua realidade. Penso, por exemplo, na ideia que a música “Minha namorada”, do Vinícius de Moraes, nos passa: “Se você quer ser minha namorada / Ah, que linda namorada / Você poderia ser / Se quiser ser somente minha / Exatamente essa coisinha / Essa coisa toda minha / Que ninguém mais pode ser”. O que ele está nos fazendo acreditar? Que amor seria posse? Propriedade? Exclusividade daquele que ama? Que terrível! Quem conseguiria seguir, sem sofrimento, esse ‘caminho’ por tanto tempo? Quem de fato é capaz de enxergar e viver um amor apenas pelo olhar e o desejo de um?

E a música do sofrido Vinícius ainda continua (mais machista): “Porém, se mais do que minha namorada / Você quer ser minha amada (…) / Você tem que vir comigo em meu caminho / E talvez o meu caminho seja triste pra você / Os seus olhos têm que ser só dos meus olhos (…)”. A proposta aqui é a de enfrentar uma vida sob a perspectiva de apenas ‘um’ (e no caso, dele). Sob a ótica e a vontade da unidade, do infinito, do inseparável e eterno (enquanto dure). É impossível encarar uma vida a partir da fracassada ideia platônica de que as almas foram um dia coladas (mas que algum ser malévolo as separou) e que você precisa procurar a sua metade da laranja (bem ao estilo Fábio Jr.) para ser feliz.

Alain Badiou, filósofo e escritor, propõe uma visão partindo da diferença, e não mais a partir da identidade e do (des)encontro das almas, em seu livro Elogio ao amor: “(o amor) nos conduz ao campo de uma experiência fundamental daquilo que é a diferença e, no fundo, à ideia de que é possível experimentar o mundo a partir da diferença. Nisso que ele (o amor) tem alcance universal, uma experiência pessoal da universalidade possível”. Há que se experimentar o mundo a partir da diferença. Do diferente. Do amor não mais como unidade, como conquista, como vitória e sucesso – mas sim como fruto de um trabalho árduo, penoso, acidentado… e repleto de fracassos. E é essa luta que dá sentido, que motiva, que traz alegria e conforto: “resolver os problemas existenciais do amor é a grande alegria da vida” (…) “há um trabalho do amor, e não apenas um milagre. É preciso estar em movimento, é preciso ter cuidado, é preciso se reunir, consigo mesmo e com o outro. É preciso pensar, agir, transformar. E então, sim, como a recompensa imanente do labor, há a felicidade”.

Acho que se eu e Vinícius de Moraes tivéssemos em mente a possibilidade do amor como diferença poderíamos ter tido mais momentos de felicidade. Verdade é que talvez o poetinha não tivesse se casado e se separado tantas vezes (foram nove); e talvez nem tivesse escrito tantos sonetos de amor. No meu caso, talvez eu não precisasse continuar enviando mensagens ridículas e nem áudios bregas na certeza de que, finalmente desta vez, encontrei a minha alma gêmea (eu te exorcizo, Fábio Jr.)

Por Jacques Fux  – é escritor, matemático, mestre em computação, doutor e pós-doutor em Literatura. Foi pesquisador na Universidade de Harvard (2012-2014). Autor dos romances: Antiterapias – Prêmio São Paulo; Brochadas – Prêmio Nacional Cidade de BH; Meshugá: um romance sobre a loucura  – Prêmio Manaus de Literatura; e Nobel. Autor dos ensaios Literatura e Matemática – Prêmio Capes e finalista do Prêmio APCA; e Georges Perec: a psicanálise nos jogos e traumas de uma criança de guerra e Ménage Literário. Publicou ainda: O enigma do infinito – finalista do Prêmio Barco a Vapor e do Jabuti, selo “Altamente Recomendado” FNLIJ. Seus livros foram traduzidos para o italiano, o espanhol e o hebraico.

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