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Carreira executiva: entrevista com Paula Harraca

“Humildade para escutar, generosidade para compartilhar”

 

É transitando e aprendendo com diferentes culturas que a conselheira de empresas Paula Harraca vem formando um dos mais interessantes olhares sobre a inovação – incluindo em setores tradicionais, como a indústria do aço. Com um repertório tão diverso quanto rico, ela, que já integrou a Seleção Argentina de Hóquei de Grama (Harraca nasceu em Rosário, no país vizinho), trabalhou como secretária, fez estágio em agência marítima até entrar na gigante da siderurgia mundial, a ArcelorMittal, como trainee e se tornar a primeira mulher do grupo a ocupar um cargo C-level. Liderando as principais estratégias de inovação com foco em pessoas, a executiva quer incentivar empresas a construírem um futuro melhor a partir do agora. Conheça mais sobre a trajetória e visão desta grande executiva.

Segundo o relatório Women in the Workplace 2022, mulheres que ocupam postos de liderança são mais suscetíveis a terem sua autoridade minada, recebem menos reconhecimento e são mais propensas a desistir (o estudo foi realizado com 40 mil funcionários de 55 empresas nos EUA e Canadá). Além de incentivar que mais mulheres ocupem cargos de liderança, o que as empresas podem fazer para potencializar suas habilidades e contribuir para sua evolução?

De acordo com pesquisa do IBGE feita em 2019, as mulheres no Brasil representam 52,2% da população. Mas essa porcentagem encontra-se longe da presença feminina em cargos de liderança, que, de acordo com uma pesquisa realizada pela Grant Thornton, elas ocupam apenas 38% dos cargos de liderança no Brasil, inclusive evidenciando uma queda de 1 ponto percentual em relação ao estudo de 2021.
Ao mesmo tempo, um estudo global da McKinsey & Company com mais de 1.000 empresas em 15 países descobriu que as organizações no quartil superior de diversidade de gênero eram mais propensas a superar a lucratividade – 25% mais predisposta para equipes executivas com diversidade de gênero e 28% mais favorável a conselhos com diversidade de gênero.

Paula Harraca é a primeira mulher a ocupar um cargo C-level na gigante do aço, a ArcelorMittal. Imagem: Leo Drumond / NITRO

As estratégias para potencializar as habilidades da liderança e contribuir para que as mulheres alcancem cada vez mais posições de liderança podem incluir diversas ações. Mas para as ações serem assertivas, é preciso construir uma estratégia de curto, médio e longo prazo, que considere o estado atual e que defina metas e compromissos que movimentem a organização no sentido de atingir a equidade de gênero até determinada data. Partindo desse objetivo, o primeiro passo é fazer uma escuta estruturada dessas mulheres (por exemplo, via grupos de afinidade criados para tal fim) para entender quais os elementos dentro dessa realidade que operam como obstáculos, seja nas políticas de recursos humanos (atratividade, desenvolvimento, sistemas de trabalho, etc), até o estilo de liderança predominante e a cultura organizacional.

Programas de diversidade e inclusão bem-sucedidos refletem um processo de transformação com humildade, reconhecendo o ponto de partida e se propondo a inaugurar uma jornada de muito aprendizado e empoderamento, dando voz às pessoas com representatividade (neste caso, falamos em mulheres) e espaço para propor iniciativas. Esses projetos costumam abranger ações para engajamento de lideranças; conscientização sobre o tema; e uma revisão de sistemas, políticas e práticas de carreira e benefícios. Também são importantes as ações afirmativas, ou seja, específicas para esse público, seja na atração e contratação quanto na promoção do autoconhecimento e desenvolvimento de mulheres, como por exemplo, programas de mentorias individuais e/ou coletivos.

A representatividade também é um fator importante: quando as mulheres enxergam dentro de uma realidade organizacional que existem mulheres na alta liderança, facilita a possibilidade de se enxergarem num futuro nessas posições. Encontrar referências que alimentem o estimulo a esse crescimento e fortaleçam sua confiança é fundamental para ir progressivamente evoluindo na desconstrução dos paradigmas e na reconstrução de realidades organizacionais que reflitam a riqueza que a diversidade da sociedade oferece.

De trainee à primeira mulher a assumir um posto c-level do grupo ArcelorMittal, você liderou diversas iniciativas que servem, hoje, de exemplo para o setor, como o AçoLab. Poderia contar mais sobre a sua caminhada, quais foram as atitudes e habilidades essenciais neste percurso, como forma de inspirar outros profissionais?

Eu ingressei no curso de Administração de Empresas pela Universidade Austral na Argentina, entrei no vestibular com a melhor nota, ganhando com isso 50% de bolsa, e fiz de tudo um pouco para pagar meus estudos: fui secretária, até distribui panfletos na “praia” às margens do Rio Paraná e no Boulevard Oroño, (marcos históricos de Rosário). Fiz estágio dois anos numa agência marítima, e em seguida, iniciei minha carreira no mundo corporativo com 22 anos na Acindar (subsidiária da ArcelorMittal na Argentina), como trainee. Naquela época, eu e uma funcionária da limpeza éramos as únicas mulheres na área de Aciaria, unidade em que um mix de sucata e ferro-esponja (direct reduced iron) são transformados em aço. Entrei com muita vontade de aprender e com o sonho de algum dia me tornar responsável pelo RH. Os conselhos da minha mãe na entrevista final do processo seletivo me acompanham como parte do meu DNA até hoje: “seja você mesma, se sendo você não for escolhida, esse lugar não é para você! E nunca abra mão dos seus valores.”

Após seis meses, o vice-presidente Industrial me chamou para conversar: “o Gerente da Aciaria fala muito bem de você, então quero te conhecer.” E no final da conversa, me convidou a trabalhar com ele: “daqui a umas semanas você vai ao Brasil para ser treinada em Seis Sigma”, me falou, e aí começou meu aprendizado do português e meu vínculo com este país maravilhoso que escolhi como lar faz 10 anos.

Sobre as habilidades essenciais, primeiro, minha dedicação e entrega: sempre busco e busquei superar as expectativas e acredito que tenho feito isso consistentemente, ao longo dos anos, independente do país, do chefe ou do cargo.

Segundo, minha presença ativa e vivência plena de cada experiência: tenho atuado nas áreas de Modelo de Gestão, Industrial, Melhoria Continua, Gestão de Pessoas, Sustentabilidade, Inovação, Comunicação, Investimento social, Estratégia e Assessoria Executiva do CEO, entre outras, em seis países diferentes: Argentina, Trinidad e Tobago, Canadá, Espanha, Luxemburgo e o Brasil. Mas não são as áreas nem os cargos que determinam a bagagem, e sim o que eu consegui aprender e contribuir, me entregando a cada uma dessas experiências.

Terceiro, meu comprometimento: eu penso na empresa, como se eu fosse a dona, e tomo minhas decisões pautada nisso. Primeiro, pensar no coletivo, no time, na organização. Existe muita gente que coloca a si mesmo antes de tudo (ego, medos, inseguranças, vaidades), mesmo que de forma inconsciente. Isso costuma gerar um desgaste de energia imenso, além de decisões erradas pautadas em motivos egoístas, medíocres e míopes, fortalecendo silos ao invés de promover que o valor flua em toda a organização, e ganhem as melhores ideias, no lugar da hierarquia.

Você lançou recentemente o livro “O poder transformador do ESG – como alinhar lucro e propósito”. Um dos modelos organizacionais abordados na publicação é a competitividade consciente. Poderia falar mais sobre esse conceito e como ele pode impactar a cultura das empresas?

Com base nas minhas vivências, conhecimentos, pensamentos, perspectivas e visões, apresento no meu livro o modelo dos “7Cs da competitividade consciente”. Esse modelo também é fruto de conversas e trocas com especialistas de renome. O objetivo é oferecer um eixo condutor, uma espécie de marco de referência para que lideranças de qualquer indústria ou setor possam desenvolver sua própria visão, conforme sua realidade específica.

Quando falamos em 7Cs para a competividade consciente, abrangemos conceitos que são fundamentais para compartilhar uma visão integrada dos eixos que devem nortear a criação, a definição e a identificação da abordagem estratégica para que a competitividade empresarial seja sustentável e consciente.

Os 7Cs são direcionadores estratégicos da competitividade consciente, elementos que devem funcionar em conjunto, de maneira interdependente e harmônica, dentro de uma organização, para guiar um caminho que aumente a proposta de valor da empresa para seus diferentes stakeholders e, ao mesmo tempo, possibilite que ela possa se tonar uma organização cada vez melhor para o mundo.
É comum ouvirmos falar em capitalismo consciente, e, ainda que esse tema seja muito importante, aborda somente uma das perspectivas que devem ser consideradas quando falamos de organizações: o capital.

A competividade é um elemento importantíssimo, porque é justamente a necessidade de os negócios se tornarem eficientes, melhores no seu funcionamento e nas suas propostas de valor para serem apreciados pelo mercado que eleva o “nível do jogo dos negócios”, desde que seja uma competitividade consciente. Se assim o for, todos ganham: o cliente, os colaboradores, os acionistas e a sociedade. Juntos, formam a bússola que guiará a empresa para o futuro que ela deseja, garantindo sua longevidade. Esses direcionadores unem grupos de necessidades e expectativas em grupos de aglutinadores de valor.

São eles: causa, cultura organizacional, colaboradores, clientes, capital, comunidade e competitividade estratégica. O impacto deles na cultura organizacional é tão grande que ela é um dos C, e por isso, o livro traz um capítulo específico para abordar este tema.

Sabemos de sua paixão pelos esportes, principalmente pelo hóquei de grama. Em seu ponto de vista, qual a importância de transitar por diferentes áreas (como no seu caso, entre os esportes e mundo executivo) e o que essa experiência pode ensinar à vida pessoal e profissional?

O esporte tem sido muito importante para mim desde pequena, e tem estimulado valores essenciais para minha formação e para minha vida como: o valor do time, pois ninguém atinge nada sozinho; a importância do treinamento e da dedicação, ingredientes fundamentais para a própria superação; compreender que além da intensidade, é preciso de constância, disciplina e muita perseverança para superar a si mesmo constantemente, humildade para aprender com as derrotas, identificando os pontos que precisavam ser melhorados, e humildade também para lidar com as vitórias.

Especificamente como goleira aprendi uma bela analogia do que vivi depois por mais de 10 anos na área de gestão de pessoas, pois o (a) goleiro (a) do time tem um papel muito peculiar: se ele/ela faz seu papel, costuma não ser percebido/reconhecido, é obrigação, mas qualquer erro vira gol. Claro que os erros existem, mas, uma vez que eu levava um gol como goleira, tinha que treinar aquela mesma jogada exaustivamente para evitar que um outro, no mesmo estilo, acontecesse novamente. Foi assim que, treinando de forma intensa e consistente, me destaquei e comecei a crescer no esporte, chegando à seleção nacional júnior.

Essa talvez seja uma das mais importantes lições: “fazer bem-feito é nossa obrigação. Precisamos ir além, nos superarmos continuamente e surpreender todas as expectativas se queremos atingir um diferencial competitivo.”

Finalmente, eu acredito que só existe um concorrente para mim: quem eu fui ontem. Essa mentalidade de melhoria contínua e de aprendiz me faz procurar o “não saber” o tempo inteiro, desenvolvendo a minha humildade para escutar, generosidade para compartilhar, responsabilidade para me comprometer e coragem para ousar, inovar e ser diferente.

Você é considerada uma das executivas mais admiradas do Brasil e é inspiração para muitas pessoas. Gostaríamos de conhecer as suas inspirações. Poderia citar aqueles que mais te inspiram e por quê?

Minha maior inspiração é a minha mãe, um exemplo de resiliência, antifragildiade, autenticidade, generosidade, compromisso, dedicação, coragem, ética… posso continuar citando qualidades, realmente minha mãe é um grande exemplo para mim.

Além dela, me inspira muito Jesus Cristo, não apenas em função da minha fé, mas também pela sua história de vida exemplar, e por ser considerado uma das pessoas mais marcantes na história da humanidade, independente de qualquer religião.

Atualmente sigo várias lideranças contemporâneas, dentre delas, destaco o Lionel Messi, a quem acompanho há muitos anos, ele é um exemplo de pessoa e professional, por sua grandeza na sua simplicidade e o respeito que ele gera em milhões de pessoas. Recentemente descobri a liderança do Lionel Scaloni, técnico da seleção de futebol da Argentina, e grande inspiração para mim pela sua humildade, foco, competência e sensibilidade humana.

Ainda no âmbito do esporte posso citar vários atletas e técnicos que me inspiram, como o Roger Federer, as irmãs Vênus e Serena William, e o Pep Guardiola, todos eles pela competência, perseverança e consistência em trajetórias super destacadas. Tenho também três grandes referencias, os autores Simon Sinek, Adam Grant e Brené Brown, cujas reflexões me inspiram bastante.

Finalmente, citando alguns exemplos do Brasil, quero destacar o querido Bernardinho, grande exemplo para mim, que ainda fez a honra de escrever o prefacio do meu livro; executivos como Guilherme Benchimol, founder e chairman da XP, exemplo de líder ousado, humilde, focado e integro; Luiza Trajano pela sua grande potência e força, e não poderia deixar de citar o Padre Fábio de Melo, que me provoca com suas reflexões no Instagram e nos seus livros.

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